“Adaptar é sempre trair — transformar”: Ozon fala em Veneza sobre a sua visão de “O Estrangeiro”

(Fotos: Divulgação)

Regresso de Ozon à competição da Mostra de Veneza depois de lá estrear Frantz (2016), O Estrangeiro (L’étranger) é uma adaptação do clássico absoluto da literatura francesa. Escrito por Albert Camus em 1938, mas publicado em 1942, na plenitude do colonialismo francês na Argélia, o filme conta com Benjamin Voisin como Meursault – um francês a viver nesse território cuja indiferença acaba por conduzir a um assassinato a sangue-frio e a um julgamento que vai questionar tanto o crime como a sua natureza.

Foi um desafio pegar num clássico tão lido. Reli-o em adulto e percebi muito mais do que em estudante. Interessou-me sobretudo a frase ‘Matei um árabe’, que queria situar claramente no contexto da colonização francesa. O objetivo foi ser fiel ao perfil psicológico do Meursault, mas com um olhar contemporâneo”, disse Ozon aos jornalistas em Veneza, na habitual conferência de imprensa sobre o filme. “Não quis fazer filosofia, apenas contar a história. A primeira parte é mais narrativa, a segunda é interior e difícil de adaptar; acrescentei cenas para dar forma ao pensamento do Meursault e ao confronto com a religião. Cada leitor tem a sua interpretação.”

Quando questionado sobre a versão cinematográfica do mesmo livro, adaptada em 1967 por Luchino Visconti, Ozon dispara rapidamente o quanto adora Marcello Mastroianni e Visconti. “O filme caiu um pouco no esquecimento. Sou um grande fã do Visconti e não foi fácil encontrá-lo; vi-o no YouTube. Ouvi o Visconti dizer em entrevistas que não conseguiu fazer o filme que queria: a viúva do Camus pediu-lhe que respeitasse ‘a letra’ do livro. O argumentista queria falar mais da guerra da Argélia, tema candente na altura, e não pôde. Adaptar é sempre trair — transformar. O Visconti não pôde ir onde desejava e a escolha do elenco foi, em parte, imposta (creio que o Dino De Laurentiis produziu). Para mim, o Mastroianni é um génio; mas, para nós, franceses, é estranho ver um italiano numa figura tão ‘francesa’. O Alain Delon interpretou outras personagens próximas; o Gérard Philipe teria sido um grande Meursault. Ver o filme do Visconti foi importante, tal como ver outros cineastas italianos. O Antonioni, por exemplo, podia ter feito esta adaptação — os italianos trabalham magistralmente a solidão nas cidades modernas. Captariam bem a solidão do Meursault. (…) Durante a rodagem esqueci o romance. Mas sei que os atores — o Benjamin e a Rebecca Marder — andavam sempre com o livro; às vezes diziam-me: ‘Falta isto’ ou ‘esqueceste aquilo’. Para mim, a adaptação jogava-se no guião. Era importante ouvir a voz do Camus; por isso usei voz-off duas vezes. Não é o que o Visconti fez. Interessava-me o filme que passa na cabeça do Meursault — como se houvesse páginas em branco para preencher com palavras, imagens e sensações. As duas passagens em voz-off são no momento do homicídio — o Meursault mata o árabe na praia —, um momento central da literatura francesa, que eu quis assumir plenamente no ecrã.”

Benjamin Voisin e Rebecca Marder

Sobre a questão de ter filmado a preto e branco, o realizador de clássicos como 8 Mulheres (8 femmes, 2002) e Dentro da Casa (Dans la maison, 2012) disse que isso esteve sempre em cima da mesa desde o início, relembrando que já tinha trazido a Veneza um filme a preto e branco, Frantz: “Ao trabalhar este tema, todo o material de arquivo que vi era a preto e branco; a memória coletiva dessa época também o é. Foi uma escolha natural — para mim, mais realista. Sendo um romance filosófico, o preto e branco parecia-me adequado, uma forma de visão ‘pura’. E houve também um lado económico: não sou um realizador de blockbusters americanos, não tinha orçamento para um grande filme a cores. O resultado surpreendeu-me pela positiva. Por exemplo, quando vi a Rebecca Marder de fato de banho, disse para mim: ‘Parece a Elizabeth Taylor.’ E ao olhar para o Benjamin, às vezes via Cary Grant. Percebi o potencial do preto e branco. Pensei nas cores, claro, mas o preto e branco impôs-se.

Afirmando que os ensinamentos e cinema de Robert Bresson foram muito importantes, sobretudo na direção de Benjamin Voisin, Ozon explica que a personagem principal bebe bastante dessa inspiração. Mas havia outras figuras, quase simbólicas, que pediam contrastes. “Precisava que a Rebecca fosse viva, luminosa, sensual — em contraponto ao Benjamin, mais ausente, quase descuidado. Esse contraste interessava-me. Os outros atores às vezes queixavam-se: ‘O Benjamin nem me olha!’ — mas era precisamente o jogo certo para a personagem.

Sobre a forma como abordou a personagem, Benjamim Voisin, que reencontrou o cineasta depois de Verão de 85 (Été 85, 2020), disse que recebeu indicações muito precisas do que tinha de fazer e que a criação da dúvida era essencial. “Tentei compreender a personagem e encontrar uma forma de tornar visíveis as questões morais do romance”, explicou, citando ainda Bresson “na distinção que ele faz entre ‘modelo’ e ‘ator’, entre o que se faz e o que se sente”.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/8x7f

Últimas