Todos já ouvimos a expressão estar no sítio errado à hora errada, mas no caso de Tomek Komenda, erroneamente detido por quase duas décadas pela violação, agressão e assassinato de uma jovem de quinze anos na passagem de ano de 1996-97, o problema foi mesmo a vizinhança.

Ainda hoje não se sabe porquê a vizinha da porta ao lado de Komenda sugeriu à polícia o nome do rapaz como eventual criminoso de um caso que se arrastou largos anos e se tornou um fenómeno mediático na Polónia.  O certo é que Komenda tinha 12 testemunhas/familiares que viviam consigo e que juraram a pés juntos que o na noite de passagem de ano em questão, o rapaz não saiu de casa, impedindo-o assim de se deslocar a uma  discoteca na localidade Miłoszyce. Testemunhos que não valeram nada em tribunal, que seguiu as provas forenses recolhidas pela polícia ao longo de 3 anos, e o testemunho – sobre pressão – do rapaz quando foi detido.

Condenado em primeira instância a 15 anos de cadeia, Komenda viu no recurso a pena ser alargada por mais anos, e só quando a procuradoria geral polaca entendeu que existiram  várias incongruências, imprecisões e relatos que não foram contabilizados, o calvário do rapaz – que tentou o suicídio 3 vezes na cadeia e sofreu na pele o tratamento dos outros prisioneiros aos “pedófilos”- começou a dissipar-se.

Assinado por Jan Holoubek, em estreia na realização, “25 Years of Innocence. The Case of Tomek Komenda” é um drama de suspense tão comovente como absurdo nos relatos, criteriosamente montado (por Rafal Listopad) e fotografado (Bartlomiej Kaczmarek) numa narrativa que se vai desfiando à medida que a verdade vai surgindo e os procedimentos policiais são postos em xeque.

Drama familiar, de tribunal e de prisão, é impossível não recordar muitas narrativas norte-americanas em torno de condenados injustamente, ou noutras paragens, onde filmes, como “Em Nome do Pai” mostraram a criação de bodes expiatórios para resolver casos de grande pressão mediática sobre as forças da lei, normalmente pela escolha de alvos frágeis e facilmente manipuláveis como Komenda – um homem de classe baixa, sem estudos, com dificuldades de aprendizagem e sem possibilidade de boa representação legal. Talvez aqui resida a única falha concreta no filme, o de não mostrar totalmente os parcos recursos que a família Komenda possuía para conseguir advogados à altura, embora toque por algumas vezes nos erros claros desses defensores, como o deixar (inexplicavelmente) terminar os prazos de revisão do caso.

Isso não implica, porém, que o filme seja regido por uma forma de superficialidade dos elementos movidos por um sentimento de filme comercial que tem de agradar as massas e ser despachado, sem tempo para grandes introspeções, e há algum um esforço em mostrar como era a vida humilde do jovem, a sua evolução psicológica, a própria perceção da sociedade perante ele, e o drama que se abateu numa família.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
25-anos-de-inocencia-o-caso-de-tomek-komendaO realizador em estreia Jan Holoubek executa um drama eficaz em torno de um homem injustamente acusado de violação e assassinato de uma adolescente