Pilar de modernidade no cinema brasileiro, marcado por uma herança neorrealista filtrada por um ethos alarmista em relação às contradições sociais do país, “Rio 40 Graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), encontrou ressonância entre as novíssimas gerações do seu país ao ser projetado em retrospetivas contínuas e ao ser adotado por streamings como o Globoplay. Partes do filme, seminal para a consolidação da modernidade nas artes da América Latina, assim como as ideias que o geraram fazem parte do documentário sobre o cineasta que iniciou a sua carreira em Cannes, em maio, e chega hoje ao Festival do Rio 2023.

A realização é de Ivelise Ferreira, produtora e viúva do homenageado, e da realizadora e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Aída Marques. Elas fizeram, um documentário biográfico arrebatador, que narra a construção de um olhar e a reeducação da mirada de um país que, entre os anos 1930 e 1950, acomodou-se em ver longas-metragens decalcadas de fórmulas americanas (mas carnavalizadas) e europeias.
Com exibição nesta terça-feira, às 19h (0h em Lisboa), no Estação NET Botafogo, e reprise na quarta, às 17h, no Estação NET Rio, “Nelson Pereira dos Santos – Uma Vida de Cinema” se impõe pela elegância da sua narrativa ao reviver imagens de arquivo. Há uma leva de histórias de bastidor do cineasta, que “narra a si mesmo”, numa utilização brilhante de depoimentos dele, pinçadas de entrevistas antigas.
Quando rodou a sua última ficção, “Brasília 18%” (2006), Nelson dizia aos visitantes de seu set que “elenco não se escala por teste, e, sim, por conversa”. Adotava essa prática aplicada num modo muito relaxado de entrevistar, no qual as visões pessoais dos atores selecionados, e sua percepção sobre o sentido da trama em suas mãos, era mais importante do que quesitos técnicos ou currículos. “Opinião pode ser algo mais vívido do que talento. Eu gosto de pessoas que se posicionam”, dizia o cineasta de “Rio Zona Norte” (1957). Com esse gesto acolhedor, ele humanizava uma das etapas mais doídas do processo de criação de um filme, pautado por métodos de eliminação. Nelson não eliminava nada. Ele agregava tudo, a começar… pessoas.
“Tudo dá filme, basta saber escutar, olhar...”, dizia.
É essa a lição que promete comover o Festival do Rio esta noite, com um filme que parece um poema. Um poema de saudade. Ao abrir a sessão da longa em Cannes, na sala Buñuel, Ivelise tinha um embargo de orgulho na voz ao dizer à plateia a emoção que sentia ao exibir um filme sobre alguém que, para todo um país, todo um povo, foi um artista cultuado, mas, que pra ela, além de também ter sido um titã das telas, foi um companheiro de vida por 30 anos. Mais firme, mas com uma semente de emoção também, a voz de Aída traduzia para o Francês o que falava Ivelise.
Em fina sinergia, as duas assinam juntas a direção de uma narrativa nada didática, que consegue ser doce sem deixar de ser profunda, ao retratar sobre as múltiplas facetas do realizador e imortal da ABL que fez o Brasil provar do gosto da brasilidade em suas telas. Ivelise e Aída se armam de registos do diretor em que ele fala de si mesmo. A partir delas, deixam que ele conte sua história, na primeira pessoa, revivendo uma obra que nasce em meados da década de 1950 e vai até um díptico sobre Tom Jobim, iniciado em 2012. A costura que fazem é um primor, apoiada numa pesquisa de imagens mastodônticas. É comovente ouvir Nelson se abrir. Que carta de amor ao cinema as duas fizeram.
Haverá mais uma projeção do filme no sábado, às 15h45, no Reserva Cultural, em Niterói, onde Nelson foi professor.

