Se pensarmos que já vivemos num mundo em que existia numa nação, China, a política do filho único, o conceito da estreia da japonesa Chie Hayakawa é o de uma distopia com todas as condições de se tornar realidade no futuro.
Estreado em Cannes, na secção Un Certain Regard, e exibido recentemente no Festival de Turim, “Plan 75” segue um planeta onde a sobrepopulação é um problema, não tanto pelos nascimentos, mas pela maior esperança de vida, o que sobrecarrega de tal maneira a Segurança Social que a solução encontrada é incentivar a eutanásia a partir dos 75 anos. É pois neste Japão de Hayakawa que os idosos, mesmo que queiram, já não conseguem encontrar novas profissões para se manterem ativos após a reforma aos 75 anos, ficando entregues a si mesmos. São por isso criados, da forma mais capitalista possível, incentivos à eutanásia, que envolvem uma soma de dinheiro, entregue antes de se concretizar a morte assistida, além de estar assegurado o pagamento dos custos do falecimento (funeral, cremação, etc).
É no seio de uma das empresas que lida com esse plano, tal qual como quem hoje em dia nos telefona para vender um cartão de crédito, que acompanhamos em particular a história interconectada de três personagens, as quais, de uma forma ou outra, estão ligados a esse plano: de um lado temos um idosa, que pondera inscrever-se no plano; do outro um “vendedor” pragmático desse plano; e temos ainda uma imigrante filipina que está muito próxima do ato de “matar”.
Estas três histórias são apresentadas de forma pausada e nada exploratória, sublinhando-se a reflexão existencial sobre o tema, onde racionalidade e emoções se confrontam perante as inevitabilidades. É nisto que o papel da memória e a humanidade se tornam peças centrais de uma discussão, a qual chega mais até ao espectador pelos silêncios e expressões corporais que pelas palavras ou ações.
Conceitualmente estimulante, até porque como já dissemos, esta distopia tem pernas para andar no futuro, “Plan 75” ainda assim é muitas vezes vazio nas suas contemplações, trazendo à discussão mais uma vez a questão de boas ideias que dariam boas longas-metragens caso o guião fosse mais preenchido e profundo. É que assim, tal como vemos, temos mais um caso de uma curta-metragem enfiada nas roupas de uma longa, que efetivamente atrai o espectador pelo rol de questões que coloca, mas que demonstra ser bastante mais vazia que devia dada a riqueza do tema que levanta.
Posto isto, “Plan 75” merece uma olhadela e lança no cinema uma nova cineasta japonesa que devemos acompanhar de perto no futuro. Mas podia ser tão melhor…




















