Depois de uma vaga cinematográfica caracterizada como “nova”, normalmente chega um grupo de novos cineastas que, em busca de uma identidade e distinção dos demais, afasta-se profundamente das linhas gerais que constituíram durante décadas uma tendência. Assim acontece, nos tempos que correm, em países como a Roménia, onde as vozes de Bogdan George Apetri (Miracle), Alexandru Belc (Metronom) e Monica Stan & George Chiper (Imaculat) fogem a 7 pés da denominada “Nova Vaga de Cinema Romeno”, que Cristian Puiu inaugurou com o seu “A Morte do Sr. Lazarescu” (2005).

Na América Latina existem movimentações semelhantes e se há décadas começou a fugir-se ao chamado cinema “porno-miséria”, e mais recentemente o realismo da região ganhou elementos mágicos e fantasiosos, que lhe trouxeram uma nova camada existencial para problemas bem terrenos, agora é a vez do colombiano Andrés Ramírez Pulido distanciar-se do naturalismo social muito explorado na região, sem que para isso  tenha de recorrer a esse mágico e místico, acrescentando antes uma forte aura estilizada, algures entre o utópico e distópico. E é impossível não lembrar – até pela juventude presente em cena – “Monos” (2019) de Alejandro Landes , sobre um culto de guerreiros adolescentes que são treinados nas montanhas colombianas por um bando de maníacos.

O resultado desta incursão pelo universo juvenil de Andrés Ramírez Pulido é  La Jauría“ (O Éden), grande vencedor da 61ª Semana da Crítica, e que de certa maneira funciona como uma continuação das curtas-metragens que o jovem realizador assinou no passado: “El Eden (exibida em Berlim) e “Damiana” (exibida em Cannes).

No filme, criteriosamente fotografado por Balthazar Lab (de “Les héroïques”), o termo ficção é sublinhado na história de um grupo de jovens detidos num regime semi-prisional no campo. O que vemos em cena é um espaço fantasiado, com tanto de mensagem política como social, além de uma função terapêutica e história pessoal que se funde num todo, quer no conteúdo, quer na forma. “O que fazer com jovens criminosos sem os encarcerar juntamente com adultos com os quais vão iniciar um ciclo de crime e violência?“, parece ser a questão colocada por Andrés Ramírez Pulido, mas a pergunta é meramente retórica pois na verdade, e como se esperava, não se oferecem respostas.

Partindo de uma história particular para falar do coletivo, Andrés Ramírez Pulido centra atenções em Eliu (Jhojan Estiven Jiminez), detendo num centro para menores no coração da floresta colombiana por um crime que cometeu com o seu amigo El Mono.  Quando este último entra também no centro de detenção, que por sua vez esconde trabalho escravo manobrado pelas autoridades, muitas feridas e um intenso sentimento de culpa entram para a equação, questionando a nossa personagem central todas as suas ações.

O resultado final é uma bela primeira longa-metragem de Andrés Ramírez Pulido, onde real e figurado fundem-se e entregam tanto de poesia como mensagem social e política.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
andres-ramirez-pulido-foge-do-naturalismo-social-no-impactante-la-jauriaAndrés Ramírez Pulido distancia-se do naturalismo social muito explorado na região, sem que para isso tenha de recorrer a elementos mágicos ou místicos (que também se tornaram uma tendência na região)