“Filmar um guião é caçar o inefável”, diz Cristi Puiu na estreia de “MMXX”

(Fotos: Divulgação)

Responsável por alguns dos momentos mais devastadores da programação do Festival de San Sebastián 2023, na competição pela Concha de Ouro, com “MMXX”, o romeno Cristi Puiu faz de verbos, advérbios, substantivos e adjetivos a argamassa de um ritual de exorcismo aplicado às relações familiares numa experiência narrativa exótica: “MMXX”.

Os numerais romanos são o signo do ano 2020, o que nos põe nos trilhos da pandemia numa trama que ronda quatro núcleos: os três primeiros envolvem uma psicóloga, o irmão e o marido; e o quarto usa um funeral como pano de fundo. Na entrevista a seguir, Puiu explica ao C7nema como a Roménia cavou para si um lugar de honra nos ecrãs, com longas-metragens como “The Death of Mr. Lazarescu” (2005) e “Sieranevada” (2016).  

Num filme que pode ser traduzido como “2020”, em referência ao ano zero da pandemia, que lugar a covid-19 ocupa na sua dramaturgia?
Com o coronavírus, fomos confrontados com os nossos desejos mais internos, com os nossos medos e com o que havia sido escondido debaixo do tapete. A pandemia revelou o lado mais tenebroso deste mundo. O problema no cerne deste guião é o facto de as pessoas se colocarem numa posição de julgar o próximo por esses medos, por tudo o que estava oculto. Que autoridade uma pessoa tem para julgar a outra?

O seu cinema assume a palavra como matéria essencial de ação. É no diálogo que as verdades de “MMXX” brotam. Mas como se cria uma mise-en-scène para uma dramaturgia onde falar é o verbo central?
Este filme nasce como um exercício de investigação de um território que existe para além do verbal. Nas três primeiras histórias, que se passam com pessoas da mesma família, num mesmo espaço, as pessoas usam máscaras sempre. Nunca temos a noção precisa do que existe por trás do que as personagens dizem.

Como dirigir o elenco nesse procedimento investigativo de palavras?
Filmar um guião é uma caçada pelo inefável. Um realizador é como um guarda de trânsito num cruzamento: ele não conduz o veículo, mas indica que caminhos devem ser avançados e quais não podem seguir adiante. Realizar um filme é dizer muito “Não!” e um ou outro “Sim!”.    

Que responsabilidade assume sobre a onda romena que começou com “The Death of Mr. Lazarescu” e segue até hoje?
Ao lado dessa vaga, há um movimento paralelo de pessoas a procurarem um caminho de filmes mais comerciais e que estão a ter sucesso. Não sei o que dizer sobre o futuro, mas posso opinar sobre o presente e o que vejo é um formato que nasceu com a boa recepção a um filme, pela crítica, em Cannes. Muitas pessoas passaram a seguir esse modelo sucedido, porque a nossa produção depende do Centro Nacional de Cinema. Se o teu filme mais recente não entra num grande festival, o projeto seguinte pode não receber verbas. É um círculo vicioso. Mas não é só no meu país.

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