À quarta longa-metragem, João Nicolau estreia-se em Roterdão, depois de ter passado por Veneza com A Espada e a Rosa (2010), por São Paulo com John From (2016) e por Locarno com Technoboss (2019). O seu percurso “festivaleiro” diz muito sobre si. Nicolau constrói a sua filmografia fora de qualquer zona de conforto, em festivais que acolhem o risco como método e não como exceção.
E, falando em riscos, eles continuam no menu e, quando assumidos com convicção formal, como normalmente acontece no seu cinema, eles funcionam mais como gestos de abertura do que de exclusão. Não, os filmes de Nicolau nunca foram para todos os paladares (ou ouvidos), mas o aviso está lá, explícito, desde a matriz absurda do conto de Robert Louis Stevenson de que se apropria, como na reafirmação nos créditos. Nicolau não engana, e convida todos a entrar na sua mente de regras fluídas em constante deslizamento.
Podendo ser visto como um parente espiritual de Technoboss, não apenas pelo regresso de Miguel Lobo Antunes, mas sobretudo pela musicalidade despida de ornamentos, A Providência e a Guitarra está minada de canções originais — de arranjos simples, ditados pela presença constante de uma guitarra — que não interrompem a narrativa. Na verdade, elas são a narrativa e Nicolau filma esses momentos com a mesma naturalidade como quem regista alguém a trabalhar ou a comer, num gesto discreto mas firme sobre o lugar da criação, da espontaneidade do corpo e da alma artística no quotidiano.
Adaptado livremente de Stevenson, o filme usa o texto literário não como estrutura, mas como ponto de ignição. Numa narrativa a dois tempos, seguimos no passado León e Elvira Berthelini, artistas ambulantes que atravessam vilas à mercê da hospitalidade alheia. Neste período, a fotografia assume cores mais pálidas e um granulado acentuado, enquanto as interpretações sublinham uma dimensão mais teatral. Nicolau expande esse universo ao trazê-los para o século XXI, agora integrados numa precária banda punk rock chamada Desgraça. O resultado é um cinema em transição, onde passado e presente coexistem, como se a vida artística fosse uma repetição com algumas variações de acordes, em que as mesmas questões regressam noutra gramática.
A arte, aqui, nunca é destino nem salvação. É sobrevivência e o público, recorda o filme com ironia, raramente gosta de pagar. León e Elvira, interpretados por Pedro Inês e Clara Riedenstein, funcionam menos como casal romântico e mais como força de resistência, atravessada tanto por egoísmos e marcas de altivez, como humildades várias: eles confrontam quem se apropria dos seus nomes, agitam polícias que lhes recusam licenças para atuar, desafiam morais e convocam figuras do Estado para expor conflitos simultaneamente sociais e íntimos. O artista surge quase sempre num pedestal intelectual, nem que para isso convoque a forma mais extrema do egoísmo da arte, como se observa com particular acuidade nas cenas no tempo presente. E, já que falamos de artistas, Salvador Sobral estreia-se por aqui como ator. Nicolau, porém, evita dar-lhe grandes cantorias, desafiando as expectativas do espectador.
A Providência e a Guitarra exige atenção e disponibilidade de quem o vê e ouve e está preparado para o absurdo, mas recompensa com generosidade, sobretudo no sarcasmo que dispara em várias direções: no passado, onde o artista surge como figura de elevação intelectual, em oposição aos homens das contas que anunciam o capitalismo; e no presente, onde o espírito ea precariedade subsiste, mas o indivíduo parece cada vez mais desalinhado com quem o rodeia. Pelo caminho, Nicolau lança tiradas ácidas — e hilariantes — à chamada “esquerda total” contemporânea, que despreza a velha esquerda enquanto ostenta cartazes como “sexo privado é saúde pública”, sem conseguir explicar conceitos como meritocracia. A piada faz-se sozinha, tal como no momento em que, num programa da rádio Plutex, o anfitrião interpretado por Rui Reininho se depara com uma banda em frangalhos, que mal se fala — e mal se entende —, mas quer passar uma mensagem de união e revolta coletiva.
Preferindo o atrito e acreditando que a linguagem, mostrada nos enquadramentos, no dito, cantado ou tocado, ainda pode ser um ato político, João Nicolau insiste num cinema que recusa cedências comerciais. E isso continua a ser, hoje, um risco raro.


















