Coroado na Quinzaine des Cineástes de 2017 com o Prémio Fipresci pela fina mescla de linguagens de “A Fábrica de Nada“, num trânsito entre o musical e o documental, Pedro Pinho volta a Cannes, agora na disputa pelo Prix Un Certain Regard, com uma saga de proporções épicas por diferentes continentes e por uma língua de errância. “O Riso e a Faca” espalhou os seus 211 minutos pelo Palais des Festivals na junção de talentos de Portugal, da França, da Roménia, de Áfricas e o Brasil. A fotografia de Ivo Lopes Araújo, artista visual cearense, angariou fãs para a fita, que se chama “I Only Rest In The Storm” em inglês.
O nome de batismo, “O Riso e a Faca“, parte de uma canção homónima do músico cantor e compositor baiano Tom Zé. É um título que traduz os extremos de uma aventura existencialista rodada na Guiné-Bissau e no deserto da Mauritânia, entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2024. Além das lusas Uma Pedra No Sapato e Terratreme, a película conta com a coprodução da brasileira Bubbles Project, de Tatiana Leite, com distribuição no Brasil da Vitrine Filmes.
O seu guião pavimenta-se a partir do périplo do engenheiro ambiental Sérgio, um português que viaja para uma metrópole na África Ocidental onde vai trabalhar num projeto rodoviário entre o deserto e a selva. Lá, ele desenvolve um relacionamento íntimo com dois moradores da cidade, Diára e Gui. No trio de protagonistas, está o brasileiro Jonathan Guilherme, ex-atleta de vôlei que trocou as quadras pela arte e hoje é poeta em Barcelona, na Espanha, onde mora. Jonathan dá vida ao personagem Gui e contracena com o português Sérgio Coragem (conhecido pelos papéis em “Verão Danado” e “Fogo-Fátuo”); e com a cabo-verdiana Cleo Diára (de “Diamantino”).

Na conversa a seguir, Pinho diz ao C7nema o que essa jornada multinacional lhe trouxe.
É difícil ver “O Riso e a Faca” sem pensar no “The Sheltering Sky” (1990), de Bertolucci, na sua forma épica de contrastrar as geografias naturais e humanas. Seja esse filme dos anos noventa parte ou não da sua genealogia, fica a pergunta acerca do espaço: de que maneira o espaço se transforma em personagem neste filme?
Não vi esse filme, mas é um facto que a geografia é uma personagem, pois a narrativa parte da paisagem e da mudança histórica provocada pela ação humana neste mundo. O filme é influenciado por quatro paisagens: deserto, cidade, floresta e ilhas.
Embora “O Riso e a Faca” seja uma empreitada de encontros e de alianças, é um filme onde a solidão espreita as personagens. De que maneira essa condição solitária reflete-se no projeto, na realização e numa produção casada com o Brasil, através da Bubbles de Tatiana Leite, repleta de parcerias de prestígio com nações estrangeiras?
Preciso citar ainda a Geba Filmes e a Maison des Cinéastes que nos abriram portas para, por exemplo, termos acesso à Guiné-Bissau. Nessa lógica da solidão, tivemos aqui uma coprodução rara, em que houve uma cooperação real de todos envolvidos. Quando fundamos a Terratreme, a ideia já era trabalhar em conjunto.
De que maneira uma saga sobre busca de identidade te transforma na relação com a sua “lusitanidade” e com o passado colonial a ela inerente?
Ela ainda está a me transformar, numa dinâmica que foi iniciado na troca com o elenco e com as paisagens. Na superação da identidade, tento questionar o que nos foi dado à nascença. Filmo para participar do processo de saber o que é isso que dizem que eu sou.
Como é que Ivo Lopes Araújo, hoje um dos mais requisitados diretores de fotofrafia do Brasil, mais colaborou para a consolidação da imagem que “O Riso e a Faca” tem, sem tirar uma identidade autoral que o seu cinema traz de “A Fábrica de Nada“?
Conheci o Ivo por meio da mãe do meu filho e temos uma química. Eu, que sou um eterno apaixonado pela Mauritânia, mostrei-lhe uma cantora de lá, Dimi Mint Abba, e ele ficou encantado com ela. Nós combinamos fazer uma viagem pelo Saara um dia. Ou seja, temos uma cumplicidade que vai além das coproduções e dos contratos de trabalho, que tem a ver com a nossa visão de mundo.

