Latidos de “Amores Perros” são restaurados em 4K

(Fotos: Divulgação)

Às vésperas da projeção do novo filme de Lav Diaz, Magalhães, a Cannes, o mexicano Gael García Bernal – que emprestou o seu prestígio de projeção hollywoodesco ao artesão autoral filipino – entrou numa espiral nostálgica ao reviver a consagração de Amores Perros, na Croisette, há 25 anos. Nesta terça-feira, a produção retorna à Croisette, em cópia restaurada, e estima-se que a estrela vá acolher o realizador desse filme de culto que dividiu águas no cinema do México, o oscarizado Alejandro González Iñárritu. Os dois trabalharam ainda em Babel, que deu ao cineasta a láurea de Melhor Realização em solo cannoise em 2006.

Lembro-me de crescer com ‘Pixote’, de Hector Babenco, com quem fiz ‘O Passado’, em 2007, a imaginar se algum dia o meu país construiria uma narrativa daquele porte, com foco nos seus desajustes sociais. Creio que o Alejandro nos instalou numa linhagem de narrativas que se respaldam na urgência das suas sociedades em expor as próprias vísceras”, disse Gael ao C& na Berlinale de 2024, quando Amores Perros entrou em restauro.

Iñarritu teve US$ 2,4 milhões para rodar um “filme coral” (termo que designa tramas com vários núcleos narrativos que se tangenciam em alguma unidade temática) pavimentado sobre um desastre rodoviário. A trama escrita por Guillermo Arriaga conta três histórias distintas que se entrelaçam na Cidade do México a partir de um acidente de automóvel. Numa, Octavio, que é dono de um cão utilizado em lutas clandestinas, deseja fugir com a cunhada; noutra, Daniel deixa a esposa para viver com uma modelo; na terceira via, o mendigo Chivo quer voltar à família. A colisão (no sentido mais trágico do termo) desses vértices gera uma geometria de dor.

Nessa época, eu e o Diego Luna embarcamos em ‘Y Tu Mamá También’, num turbilhão de tramas críticas sobre um país que entrava no século XXI em busca de afirmação”, disse Gael. Depois de conquistar o seu segundo Oscar de Melhor Realização, em 2016, por O Regresso, um ano depois das estatuetas que recebeu por Birdman, Iñárritu fechou o dique da sua torneira criativa, deixando pingar apenas uma gota, na forma da curta Carne Y Arena, idealizada como videoinstalação, em 2017.

No tempo de silêncio, quebrado apenas pela sua experiência como presidente do júri de Cannes, em 2019, quando premiou o pernambucano Bacurau, o realizador, hoje sexagenário, resolveu olhar para si mesmo e fazer as pazes com o trágico. Descarrego de tragédias… essa foi a tónica da sua obra, na formação e no amadurecimento da sua identidade autoral, com Amores Perros (2000), o esquecido 21 Gramas (2003), o já citado Babel e Biutiful (2010). Hoje consagrado como um ‘darling‘ do mercado exibidor, pelas cifras milionárias que gerou, o cineasta surfou na chamada Nueva Onda latino-americana dos anos 2000, a corrente estética de revisionismo nos modos de (autor)representação do continente que revelou Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e O Invasor, de Beto Brant; os argentinos El Bonaerense, La Ciénaga – O Pântano e Nueve Reinas; e os chilenos Um Táxi Para Três e Machuca. Ali, ele procurava afirmar a sua territorialidade. É esse México em frangalhos, de traumas, que retorna a Cannes na próxima semana.

Essa restauração de imagem e som de Amores Perros foi realizada em 2020 pela Criterion Collection, Estudio Mexico Films e Altavista Films. A imagem foi restaurada a partir do negativo original da câmara de 35 mm, que foi digitalizado em resolução 4K de 16 bits. A cor foi supervisionada e aprovada pelo próprio Iñárritu, bem como pelo diretor de fotografia Rodrigo Prieto, na Harbor Picture Company em Santa Monica, Califórnia. A restauração da imagem foi realizada na Criterion Collection, em Nova Iorque. A nova mixagem da banda sonora surround 5.1 foi criada na Cinematic Media e na Churubusco a partir dos troncos da trilha sonora arquivados digitalmente e da impressão master usando o Pro Tools da Avid e o iZotope RX.

Novos efeitos sonoros e trabalho de Foley dedicado foram adicionados em detalhes ao longo do filme. A nova banda de som foi supervisionada e aprovada por Iñárritu, bem como pelo editor/designer de som supervisor Martín Hernández, e mixada por Jon Taylor no NBCUniversal StudioPost.

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