Se a Vida materializar um ditado do escritor espanhol Camilo José Cela (1916-2002), segundo o qual “Existem dois tipos de homens: os que fazem a História acontecer e os que sofrem com ela”, a crítica cinematográfica internacional teria de enquadrar Víctor Erice na primeira dessas cruciais tipificações. Muito antes de Pedro Almodóvar, num momento de jugo franquista em que Carlos Saura (1932-2023) era um motor de resistência para o cinema autoral ibérico, o seu “O Espírito da Colmeia” (Concha de Ouro de 1973 no Festival de San Sebastián) ritualizou as inquietações da educação sentimental infantil de uma forma a um só tempo lúdica e política. Deu à sua Espanha natal uma obra-prima e reciclou o conceito de lirismo de uma Europa que se ressignifica em múltiplas latitudes ainda sob o eco das agitações de 1968. Levou dez anos para fazer uma longa-metragem nova – “O Sul”, de 1983 – e mais nove até chegar ao excecional “O Sonho da Luz, O Sol do Marmeleiro” (1992), que ganhou o Prémio do Júri de Cannes. Desde então, restringiu-se às curtas-metragens e a ministrar palestras até regressar triunfante este ano, nas salas da Croisette com “Cerrar Los Ojos”, o n° 2 do Top Ten da revista “Cahiers du Cinéma” de 2023, o que lhe dá o endosso da Bíblia da cinefilia. Endosso mais que merecido para um filme que soa como um testamento, um adeus e um “para sempre”.

Talvez seja o mais sereno estudo sobre a finitude desde “Ran” (1985). É um estudo que dialoga com outra fala do supracitado Cela: “A morte é de uma vulgaridade absoluta. Todos as pessoas que nascem acabam por passar por ela”. Erice não parece teme-la. Parece espera-la, com calma. Já no título, “fechar os olhos”, o realizador transforma em verbo (de ação) uma perspetiva de finitude e uma (triste) impressão em relação ao futuro do cinema. É hora de descer a persiana do olhar, uma vez que o audiovisual parece inundado de algoritmos e de simulacros. Contudo, o gesto de “encerrar as atividades”, traduzido por palavras na epiderme da narrativa fílmica de um já octogenário Erice parece mais escancarar possibilidades de futuro, num paradoxo. Soa como um “sair de cena” para um cineasta que filmou pouco. Mas, para sair de cena, ele nos dá um exercício de contemplação do Tempo, e da própria arte em que militou, que bate nos ecrãs com dimensão de espetáculo.

Poucos trabalhos de edição, vistos ao longo deste ano, mesmerizam a plateia na habilidade de descascar camadas de sentido das situações mais corriqueiras como a montagem de Ascen Marchena em “Cerrar Los Ojos”, estruturada numa conceção ruminante. A câmara do diretor de fotografia Valentín Alvarez flana por coloquialidades, trivialidades, como a pintura de uma parede, numa tarde de sol. Mas o gesto do pincel sob um muro, a espalhar tinta, ganha uma tessitura plástica incomum quando encarada por um Erice sedento por degustar os sentidos que as cores podem ter no écran. O mesmo se passa com as palavras, quando ouvimos: “Desaparecer… A ideia de mudar de identidade é refazer a vida em outro sítio”.

É esse o estopim do enredo de Erice, ao seguir os passos de Miguel Garay (Manolo Solo, em atuação devastadora), um cineasta cujo segundo e último filme foi interrompido há 22 anos. A interrupção se deu quando o astro e melhor amigo, Julio Arenas (Jose Coronado), desapareceu sem deixar vestígios. Duas décadas depois, as TVs falam desse desaparecimento, amigos lamentam a ausência e Garay se compadece não do filme inacabado, mas daquilo que deixou de ser… ou seja… de uma amizade que acabou sem um adeus, ou, pior do que isso, sem um abraço.

Existe algo de “Édipo Rei” aí, naquela Tebas espanhola: a esfinge do cotidiano desafia Garay ao cobrar dele o paradeiro de um amor fraterno que se atomizou. Talvez na longa inconclusa haja a resposta para o afastamento de Julio. Talvez haja também a resposta para a sensação de que o passar dos anos – feito uma máquina de fazer monstros – transformou em fantasia o que deveria ser um fato, convertendo certezas em dúvidas. Erice não olha para o passado como o Paraíso que desmanchou. Olha o passado como um guião para reescrever(mos) o presente.

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Rodrigo Fonseca
cerrar-los-ojos-uma-serena-mirada-para-a-finitudeErice não olha para o passado como o Paraíso que desmanchou. Olha o passado como um guião para reescrever(mos) o presente.