Depois de ser detida por agressão, a bailarina e aspirante a cantora Anita regressa para atuar no bar onde trabalha, descobrindo a morte repentina do namorado, Serge. Passado na cidade de Kigali, no Ruanda, e perante um grupo de amigos em choque com a tragédia, Anita encontra consolo na companhia da colega de quarto de Serge, Shema. E enquanto se debate com as difíceis memórias finais do namorado e reavalia as amizades no grupo, esta mulher ambiciona (sonha), contra a relutância de todos, dedicar menos tempo à dança e focar-se na criação musical, pedindo apoio ao seu chefe para o efeito.
Temas como os sonhos e o luto andam de mãos dadas em “Minimals in a Titanic World“, uma incursão na realização de Philbert Aimé Mbabazi Sharangabo, que apoiado por uma palete de cores garrida, sonoridades impactantes e uma atmosfera carregada na busca da resolução pessoal a partir da tragédia, entregou aos espectadores da secção Fórum da Berlinale um dos filmes africanos mais marcantes de toda a seleção oficial.
“A ideia da personagem veio da minha frequente visita a bares de Kigali, nos quais temos mulheres que dançam para clientes”, disse o cineasta ruandês ao público da Berlinale, na segunda exibição do filme no evento germânico. “Quando falas com estas mulheres, fora do palco, elas comportam-se como qualquer um de nós. Mas quando sobem ao palanque, transformam-se. Uma vez, numa conversa com um amigo, perguntei quem era a pessoa que estava em palco. Ele disse-me que era alguém que tinha estado à conversa conosco momentos antes. A minha ideia era seguir alguém que se transforma quando sobe a um palco. Além disso, tinha também interesse em seguir o luto, algo que surgiu a partir de uma situação real em que me sentei com amigos para falar de uma pessoa que faleceu e que tínhamos em comum. Na génese deste filme estão assim pequenos pequenos pedaços que fui buscar aqui e ali.”

No papel de Anita encontramos a atriz Aline Amike, Shooting Star da Berlinale em 2024. Sobre como foi o trabalho com a atriz, Philbert explicou: “Já tinha trabalhado com a Aline numa curta-metragem, por isso foi um processo natural voltar a colaborar com ela. A personagem dela era bastante diferente da do passado e tínhamos de entrar num mundo real que entendêssemos. A sua presença trouxe bastante ao filme. A ideia não era apenas dar-lhe um guião para ler, por isso tivemos uma longa conversação sobre como fazer as coisas. Ela juntou-se um pouco tardiamente à produção porque esteve presente na Berlinale, mesmo antes das filmagens. Na verdade, só se juntou a nós dois dias antes de começarmos a filmar”.
E se Alina é uma atriz já com créditos, a maioria do restante elenco é composta por não-atores, os quais fazem parte do processo criativo de construção do guião, que começou a ser trabalhado em 2020: “Tínhamos um guião que servia de mapa, mas sempre que alguém entrava no elenco, tinha de contribuir para o guião. Se lhes desse simplesmente o guião, entramos num processo completamente diferente do que pretendia. Queria que contribuíssem para a personagem que interpretavam, criando assim uma relação de união entre eles e essa personagem e o filme.”
Produzido pelo próprio cineasta com o apoio de um conjunto de colegas realizadores com quem trabalha desde 2010 na cidade ruandesa, “Minimals in a Titanic World” foi a primeira longa-metragem de Philbert, o qual, desde cedo, sabia que a casa que vemos no filme ia ser o espaço de ação de cerca de 70% das cenas: “Sempre tivemos a ideia de filmar na casa que vemos no filme, pelo menos 70% dos eventos. Os próprios atores viveram na casa durante o processo. Os seus quartos eram os mesmos das suas personagens. Tivemos um mês de filmagens para trabalhar no que vemos no grande ecrã.”
O Festival de Berlim termina a 23 de fevereiro.

