É com uma enorme delicadeza, maturidade e requinte estético que a escritora e realizadora Savanah Leaf se estreia nas longas-metragens com “Earth Mama”, projeto com o selo da A24 que entra no universo complexo de Gia (extraordinária Tia Nomore), uma mulher negra que sobrevive na zona da Baía de São Francisco, EUA, perante o dilema de uma nova gravidez.

Já com dois filhos ao cuidado dos serviços sociais, Gia desdobra-se entre trabalhos mal remunerados e grupos de apoio a mães em situação precária, expondo através da sua história pessoal um sistema que a vê como um problema e não como parte essencial da resolução.

Baseando o seu filme nos contos reais de mães solteiras que vimos em “The Heart Still Hums”, premiado documentário de 2020, correalizado com a atriz Taylor Russell, Savannah Leaf imprime um visual desbotado e granulado, com uma câmara que se cola à pele, do dia a dia de Gia, um reflexo do seu próprio estado de convulsão interno. “Não preciso de uma estrela dourada para mostrar que sou boa mãe”, diz ela à assistente social encarregue de a acompanhar, enquanto começa a ponderar evitar que o filho ainda por nascer entre para dentro do sistema que já lhe levou duas crianças. Para isso, ela terá de aceitar entregar o filho por nascer para adoção, sofrendo não apenas a pressão interna de não se separar de parte de si, mas da frustração da melhor amiga, temente a Deus no que lhe convém, que insiste no plano obscuro da retirada dos filhos aos negros como ainda parte do plano de opressão do sistema. Não está errada totalmente, pois o sistema e a sociedade é particularmente dura para as mulheres negras como Gia, mas na ausência de uma real mudança imediata, a sua visão funciona mais como um atrito que solução para Gia e, principalmente, o filho.

A dura realidade do dia a dia, onde Gia trabalha entre uma loja de fotografia de um centro comercial, às “aulas” que é obrigada a frequentar, sempre com uma dificuldade extrema em gerir a sua agenda, Savanah Leaf acrescenta uma dose de realismo mágico através de viagens espirituais a um espaço fora da realidade onde Gia encontra finalmente harmonia, em si e naquilo que a rodeia. Essa “viagem” mágica produz momentos de extrema beleza e equilíbrio, sem qualquer perda de ritmo ou interesse por parte do espectador.

E a decisão da cineasta em apresentar durante o filme, e não entregando logo à partida, todos os defeitos e problemas de Gia, responsáveis pela retirada dos filhos, evita julgamentos sumários e aumenta o jogo de empatia que se estabelece entre a nossa protagonista e quem a observa, no privilégio de uma sala de cinema.

No final temos assim uma estreia desarmante de rara sensibilidade humana, onde não há heróis e vilões no sentido clássico da história, mas combatentes com tantos defeitos como virtudes.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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