Hong Sangsoo procura “o que é concreto”

(Fotos: Divulgação)

Desde 2020, quando a gestão (de 18 anos) de Dieter Kosslick sobre a direção artística da Berlinale chegou ao fim, não houve uma edição sem um filme de Hong Sansgoo, e quase todos estiveram na competição oficial, com um detalhe importante: todos os que concorreram foram premiados. Com a chegada de Tricia Tuttle à curadoria do evento, a tradição de dar ao mais prolífico artesão autoral da Coreia do Sul um espaço cativo no certame manteve-se. Ele fechou a seleção competitiva de 2025 com “What Does that Nature Say to You” (ou “Geu Jayeoni Nege Mworago Hani”), exibido à imprensa na tarde desta quinta-feira. A sessão foi repleta de risos, até uma viragem do argumento na qual as tensões explodem.

Faço a mixagem de som dos meus filmes, num esforço de equalizar pouco, pois resolvo tudo no set, sem apelar para efeitos de pós-produção“, explicou Sangsoo ao C7nema. “O máximo que faço é abrir janelas para deixar os ruídos do exterior entrarem“.

Repleta de personagens fascinantes, esta Berlinale foi apresentada pelo realizador de “Walk Up” (de 2022) ao arredio Donghwa, um poeta de trinta e poucos anos, que leva a namorada, Junhee, para uma viagem de carro de Seul até a casa dos pais dela, nos arredores da localidade de Icheon. Ao notar a surpresa do seu amado com o tamanho da casa e os seus jardins montanhosos, Junhee sugere que ele dê uma olhadela rápida no local, mas, na entrada da garagem, eles encontram o pai da mulher, que convida Donghwa para passar o dia com a família. Todos engatam numa ciranda de conversas: o patriarca; a sua esposa, que também é poeta; e as duas filhas adultas, uma delas em crise depressiva. Naquela conversa regada a álcool, Donghwa embebeda-se e deixa cair a sua máscara de deferência, revelando um lado bem constrangedor.
“Existe um embelezamento do que é óbvio, na imagem, quando o cinema passa a procurar simbolismos. Não acredito em símbolos. Parto de arquétipos e mostro, pouco a pouco, que eles não significam nada“, disse Sangsoo, cujo nome também é grafado Sang Soo ou Sang-soo. “Eu procuro o que é concreto“.

Em 2024, ao conquistar o Grande Prêmio do Júri de Berlim por “A Traveler’s Needs“, com Isabelle Huppert, Sangsoo virou-se para os artistas que o premiaram e disse: “o que viram no meu filme?“, numa forma de expressar a simplicidade do seu olhar.

Não perco tempo com definições, pois acredito mesmo é no processo, na feitura. Depois de pensar numa história, só o que faço é escolher locações e escolher o elenco. O primeiro dia de rodagem é sempre difícil, pois ele é que me dá o tom de tudo. Passado esse dia, os detalhes da narrativa aparecem“, disse Sangsoo a Berlim.

A natureza semiótica que ele mantém desde a sua estreia nas longas-metragens, em 1996, quando lançou “The Day A Pig Fell Into The Well“, alimenta uma estrutura de produção barata, que se materializa em (no mínimo) dois filmes por ano.

Não calculo os custos, pois cuido de muitos aspectos, mas disse um dia, numa entrevista, que um filme meu custa cerca de US$ 100 mil, e isso vai se mantendo“, disse Sangsoo ao C7nema. “Tenho uma parceira de produção, a (atriz) Kim Min-hee, um assistente e um operador de microfone para o som. É uma equipa só de quatro pessoas. Cada projeto leva umas três semanas, sendo que a filmagem em si gasta uns sete ou oito dias de trabalho“.

A Berlinale chega ao fim no domingo, dia 23 de fevereiro, mas, na véspera, dia 22, os prémios oficiais serão anunciados pelo júri presidido pelo cineasta Todd Haynes.

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