Avanço afetivo sob as lentes de Tomasz Wasilewski

(Fotos: Divulgação)

Descoberto na novíssima vaga de vozes autorais da Polónia, estabelecida a partir de 2011, com o surgimento de novos veios públicos de fomento para o audiovisual naquele país, Tomasz Wasilewski ganhou prestígio na cena europeia de jovens talentos como estudioso dos vetores políticos que inebriam o querer – e o ameaçam.

Despontou sob os holofotes do Velho Mundo ao conquistar o Prémio de Melhor Guião na Berlinale de 2016, por “United States of Love”. De lá até hoje, dedicou o seu tempo ao roteiro de “Glupsy”, drama afetivo que estreia esta semana no Brasil, na Mostra de São Paulo .47, com o título de “Tolos São os Outros”. Antes, o filme foi exibido no Festival de Karlovy Vary.

Venho de um tempo em que a Polónia era uma fonte de grandes cineasta, ainda que o povo sofresse com o peso da influência da URSS. Hoje, já na faixa dos 40 anos, vivi a época em que o meu país, cinza, olhava para o pop da MTV com sonhos. Cresci numa arquitetura comunista, onde os prédios eram iguaizinhos, sob forte jugo da Igreja, tendo apenas duas boas referências do mundo capitalista: a voz de Whitney Houston nos LPs e CDs e a minissérie de TV ‘Pássaros Feridos’. Era aí que aprendíamos sobre o amor”, disse Wasilewski ao C7nema em Berlim, comemorando a boa situação do cinema do seu país.

Em “Glupsy” (“Tolos São Os Outros”), ele encara os fantasmas do etarismo ao falar de uma paixão intergeracional. Nor agumento que escreveu e filmou, Marlena (Dorota Kolak), uma mulher de 62 anos de idade, e Tomasz (Lukasz Simlat), de 42, vivem felizes e isolados do mundo numa pequena cidade do litoral. Contra a vontade de Tomasz, Marlena permite que o filho, fruto de um relacionamento anterior e que está doente, vá morar com eles. Ressentimentos e questões do passado vêm à tona, e o casal precisará redefinir o amor, as escolhas e a vida.

Quando era pequeno, o meu pai saia de casa para trabalhar, para nos sustentar, e a minha mãe ficava em casa, num reflexo de uma sociedade de padrões mais arcaicas. A lembrança mais forte que tenho dela é o aroma dos bolos que ela assava. Era um gesto de amor. O que busco ao retratar o amor é analisar as consequências do desejo”, explica Wasilewski, antes conhecido pelo drama de tom homoafetivo “Arranha-Céus Flutuantes” (2013).

“Tolos São Os Outros” está na Mostra de SP

A potência maior do seu novo filme, fora a força do elenco, está na fotografia de Oleg Mutu, grande nome da imagem realista na Roménia, responsável pelo premiado “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (Palma de Ouro de 2007). “Hoje, na Polónia, realizadores mais jovens, de gerações como a minha e até de gerações mais novas, estão num movimento de se aproximar e trocar ideias, numa sinergia”, explica Wasilewski, que terá o seu filme exibido na Mostra de SP nesta terça, no Kinoplex Itaim 2. A Mostra segue até ao dia 1 de novembro.

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