Ouvidos abertos para Eunice Gutman, pilar feminista

(Fotos: Divulgação)

Lugar de escuta é algo que jamais falta no procedimento dramatúrgico de Eunice Gutman, cineasta essencial das lutas feministas no Brasil, cujo universo simbólico será reverenciado pelo Festival do Rio num filme que leva o seu nome. Leva também a inquietação de transpor a etnografia para conquistar uma marca poética. Eunice Gutman Tem Histórias terá sessão este domingo, às 16h15 (21h15 no horário de Lisboa), no Cinesystem Belas Artes 5. O realizador é Lucas Vasconcellos.

Recentemente, a protagonista central — conhecida pelo documentário Vida de Mãe É Assim Mesmo (1983) — integrou um coletivo de artistas organizado por Nicole Algranti, para transformar a prosa de Clarice Lispector (1920-1977) em segmentos de longa-metragem. Eunice filmou Mal-Estar de Um Anjo para esse projeto, que está para estrear. A sua obra é marcada por títulos como A Rocinha Tem Histórias e o terno E o Mundo Era Muito Maior que a Minha Casa. Memórias de um quotidiano marginalizado costumam orientar a sua criação e nutrem uma filmografia que transcende bases etnográficas para construir uma poética inclusiva.

Mulheres: Uma Outra História (1988) é uma das obras mais emblemáticas da realizadora, que foi destaque em exposição nas Casas Casadas em 2022. Em Duas Vezes Mulher, filmado na favela do Vidigal, a câmara de Eunice mostra uma rua cavada e erguida por Jovina, uma personagem que dá nome à via. Ao longo do filme, os objectos dentro da casa tornam-se extensões simbólicas da urgência de edificar um lar. Barro e tijolo são ventres que geram acolhimento.

Em Nos Caminhos do Lixo, dedicado às catadoras de Jacutinga, Gutman acompanha mulheres que vivem da recuperação de materiais recicláveis, organizando-se em cooperativas. Elas conquistam identidade formal, aprendem a ler, a gerir as suas vidas e a fortalecer-se em grupo — um estudo explícito de sororidade com ressonância geopolítica.

Com o intuito de investigar o lugar da mulher na religião, Eunice dirigiu Feminino Sagrado, no qual descobriu uma freira numa periferia que celebrava missa na ausência de padres. O filme aborda também religiões de matriz africana e destaca o protagonismo feminino. Em outra investigação, buscou mulheres leitoras da Torah no povo judeu. Em A Rocinha Tem Histórias, a questão da leitura é central: as crianças queriam ver-se representadas nos livros escolares, narrando aquilo que imaginam sob o filtro da fantasia e da esperança. Importava que as mulheres que criaram escolas comunitárias tivessem um olhar para essas crianças — filhas de migrantes nordestinos que viviam em comunidades longe do “asfalto”.

Quando Eunice entrou no cinema, nos anos 1970, o documentário era uma porta mais viável para produtores independentes. Em seu percurso criativo, abraçou a não ficção como meio de dar voz às mulheres — fossem crianças, jovens, adultas ou idosas, como a senhora que aprendeu a ler aos 77 anos em E o Mundo Era Muito Maior que a Minha Casa. O título deriva do seu próprio depoimento ao contar o que descobriu após aprender a ler, no programa Mobral. Esse documentário dispensou a narração de locutor — comum nas décadas de 70 e 80 — privilegiando a voz das próprias personagens, numa criação intimista onde cada sequência revela gradualmente as suas vidas.

Ali, Eunice constrói uma grafia sinestésica singular, que faz dela uma figura maior em sua cartografia de resiliências. É essa trajetória — estética, ética e política — que o Festival do Rio agora celebra.

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