Sergei Loznitsa: “O que vemos hoje na Rússia mostra que nada mudou desde Estaline”

(Fotos: Divulgação)

Enquanto o mundo anseia por uma resolução do conflito da Ucrânia que satisfaça ambas as partes, o realizador ucraniano Sergei Loznitsa (Funeral de Estado; Dombass) não acredita que isso vai acontecer nas negociações de paz que vão decorrer em Istambul nos próximos dias. “É difícil fazer um acordo entre duas partes quando uma delas, a Rússia, não quer nenhum acordo”, disse o realizador ao C7nema, em Cannes, onde estreou o seu mais recente filme, “Two Prosecutors”. “Não vejo nenhuma força externa que leve a Rússia a encontrar uma solução. Sem desejo, não existe forma de resolução. Isto é como um jogo de xadrez em que cada jogador tenta conquistar um quadrado do outro.”.

Afirmando que a  Ucrânia está a lutar contra a segunda maior força militar global, Loznitsa diz que, de certa maneira, esse país já ganhou a guerra, pois ninguém esperava que aguentassem tanto: “Toda esta situação agora é comparável a um jogo de Poker. Um dos jogadores diz que tem uma surpresa na mão, mas na realidade não têm”.

Em “Two Prosecutors”, que concorre à Palma de Ouro e é baseada na novela homónima de Georgy Demidov, estamos em 1937, em plena Grande Purga de Josef Estaline. Aí seguimos um jovem procurador soviético, Kornev (interpretado por Aleksandr Kuznetsov), que depara-se com uma carta escrita (a sangue) por um prisioneiro em Bryansk. Acreditando que o homem era vítima de um sistema corrupto que ameaçava o idealismo socialista, esse procurador segue para Moscovo, têm uma reunião com o Procurador-Geral e expõe as fragilidades do sistema.

O que vemos hoje na Rússia mostra que nada mudou desde Estaline. Vejam o que aconteceu em janeiro aos três advogados que defenderam o Alexander Navalny, líder da oposição russa. Foram presos pelo trabalho que fizeram como advogados de defesa, sempre dentro do que a lei previa“, disse  Sergei, que continua a acreditar que o cinema e a arte é uma arma contra as autocracias.

Anfíbia, posicionada entre o real documental e contos morais, a obra do cineasta bielorrusso criado em Kiev Sergei Loznitsa estrutura-se sobre uma filosofia que ele explicou a Cannes: “A única diferença entre um documentário e uma ficção é o orçamento”.

Respeitado na Croisette por “In the Fog” (Prémio da Crítica em Cannes, em 2012) e “Donbass” (prémio Un Certain Regard de Melhor Realização em 2018), o cineasta faz a autópsia do totalitarismo no kafkiano “Two Prosecutors”, que vai de gabinetes a vagões do comboio. “É uma abordagem claustrofóbica num ambiente deprimente. Há duas pessoas, dois eixos e há o grotesco“, diz Loznitsa, que no hemisfério inicial do seu filme mostra Kornev a encontrar um colega que foi encarcerado e torturado por um estado que cala as vozes dissidentes.

Quando “Two Prosecutors” foi anunciado na seleção de Cannes, Loznitsa estava em exibição no Brasil, no festival É Tudo Verdade, com “A Invasão” (“The Invasion”). Na ocasião que esse documentário foi acabado e sua atual ficção iniciada, ele explicou ao C7nema: “Faço cinema para combater clichês, entre eles o da soberania e o da redenção. No discurso cinematográfico, não existe tempo como matéria palpável, e nem só como abstração: o que chamamos em vias práticas, na direção, de tempo é uma ilusão que não se remete apenas ao passado, mas sim a toda a percepção das instâncias que nos cercam, entre elas as instâncias do Poder. Nem presente e nem futuro são bens materiais, como o cinema comercial menos reflexivo faz parecer ser. Tudo é ilusão de uma projeção de pertencimento. A lucidez de um cineasta é saber identificar as estratégias de criação de controle que estão por trás desse pensamento ilusório, de consolidação de verdades”.

O Festival de Cannes decorre até dia 24 de maio.

(Rodrigo Fonseca contribuiu para este texto)

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