TV Brasil ilumina a obra de Kleber Mendonça Filho

(Fotos: Divulgação)

Domingo será dia de O Som ao Redor na televisão aberta brasileira. A transmissão na TV Brasil, emissora educativa de sofisticada curadoria, afina-se com a consagradora trajetória internacional da nova expressão autoral do seu realizador, o pernambucano Kleber Mendonça Filho: O Agente Secreto. Vencedor do Festival de Lima, no Peru, a produção disputará o Prémio Donostia, de júri popular, no Festival de San Sebastián, no norte de Espanha, que decorre de 19 a 27 de setembro.

Aumentam, dia após dia, as vozes que apelam à escolha de O Agente Secreto, com Wagner Moura e Maria Fernanda Cândido, como representante do Brasil nos Óscares de 2026. O filme integra hoje uma lista prévia de 16 potenciais concorrentes ao posto feita pela Academia Brasileira de Cinema, da qual sairá apenas um. Exibido na competição pela Palma de Ouro de Cannes, em maio, o thriller ambientado em 1977 recebeu do júri oficial os prémios de Melhor Realização (atribuído a Kléber) e Interpretação Masculina (a Wagner Moura), além do Prémio da Crítica e do Prémio da Associação de Cinemas de Arte.

No dia 12 de setembro, a produção da Cinemascópio abre o Festival de Brasília, comprovando a força que arrebatou a Croisette, onde Kleber disputara troféus anteriormente com o aclamado Aquarius (2016) e com Bacurau (2019), que lhe valeu, em parceria com o correalizador Juliano Dornelles, o Prémio do Júri. Voltou a Cannes em 2023 com o documentário Retratos Fantasmas, na competição pelo troféu L’Œil d’Or.

Enquanto não se sabe o destino de O Agente Secreto em relação à Academia de Hollywood, o realizador conquista espaço em outra frente, ao levar o seu aclamado O Som ao Redor à grelha da TV Brasil este domingo, às 21h30. Vencedor de 38 prémios internacionais, incluindo o Troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio 2012, o longa-metragem iniciou a sua carreira em Roterdão, na Holanda, de onde saiu com o Prémio da Crítica, atribuído pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci).

Batizado de Neighboring Sounds nos Estados Unidos e de Les Bruits de Recife em França, O Som ao Redor estreou comercialmente no Brasil em 4 de janeiro de 2013. O sucesso transformou Kleber num dos mais festejados realizadores brasileiros da atualidade. Na trama, os moradores de um condomínio numa zona abastada do Recife veem a sua rotina desestruturada pela chegada de uma milícia de seguranças. Clodoaldo (Irandhir Santos) lidera o grupo de vigias, que circula entre os residentes. Lá vivem personagens como João (Gustavo Jahn), corretor recém regressado do estrangeiro, e o seu avô, Francisco (W. J. Solha), um antigo coronelista.

Destaque ainda para Maeve Jinkings, notável como uma chefe de família incomodada com os latidos do cão do vizinho. DJ Dolores assina a banda sonora, que inclui uma cena memorável ao som de Queen.

Thales Junqueira tratou da direção artística. Pedro Sotero e Fabrício Tadeu da fotografia, que evita exotismos ao retratar a crónica de costumes — e distorções — do quotidiano. Uma cena de banho de sangue numa cachoeira de engenho de açúcar tornou-se a set piece do filme, símbolo dos espectros coloniais e imperiais brasileiros.

Nas bilheteiras brasileiras, o filme vendeu cerca de 100 mil ingressos, já com múltiplos prémios no currículo, como o Kikito de Melhor Realização em Gramado, em agosto de 2012. Dali, Kleber seguiu para Aquarius, com Sônia Braga, que se tornou um símbolo de resistência cinéfila à época do impeachment de Dilma Rousseff, há nove anos. Na sua estreia mundial, em Cannes, Kleber e a equipa subiram as escadarias do Palais des Festivals com cartazes em A4 denunciando o golpe de Estado no Brasil. O gesto ampliou o respeito europeu pelo artista e pela sua obra, pavimentando a estrada de consagração hoje aberta para O Agente Secreto.

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