Quando, na cena final de “The Bus Driver” (Sawwaq el-Utubis), Hassan, o protagonista, sai do autocarro que conduz, persegue e esmurra, repetidamente, um carteirista, enquanto grita “seus filhos da mãe”, a referência não é apenas à primeira cena do filme, em que ele deixa escapar um larápio, mas a toda a corja de oportunistas, egocêntricos, negociantes do mercado negro, gatunos e burocratas com que teve de lidar durante todo o filme.

Considerado um dos filmes mais importantes do cinema egípcio, “The Bus Driver” foi exibido com toda a pujança no Festival do Cairo 2024, numa nova cópia restaurada em 4K. Filme sobre lealdades e decisões complexas, nele acompanhamos um homem com cinco irmãs que conduz um autocarro de dia e um taxi à noite. Casado com uma mulher de uma esfera social superior e sempre renegado pela mãe desta, ele vê a sua vida dar uma volta de 180º quando descobre que a serralharia do pai, sob a direção de um cunhado com a sua própria agenda, escusou-se a pagar impostos durante mais de 10 anos e está agora sob a ameaça da penhora. Sufocado financeiramente, ele tenta recorrer a cada uma das irmãs e aos respectivos maridos, encontrando todo o tipo de desculpas e propostas obscuras para não lhe emprestarem dinheiro para pagar a dívida ao estado, que se situa na casa das 10 mil libras egípcias.
Veterano da guerra de 1973, que opôs Egito e Israel, Hassan (Nur Al-Sharif) é um protagonista atípico, um anti-herói num drama que visita o egoísmo e o oportunismo geral de uma massa de personagens que se distancia de todos os ideais que o levaram a defender o seu país. Apenas uma das irmãs de Hassan, e o seu marido, que foi colega de guerra dele, se prontificam a ajudar monetariamente o pai de Hassan, o qual, à medida que as desilusões e falta de solidariedade se acentuam, vai mostrando cada vez mais sinais de fadiga e doença.

É na força do guião, escrito por Bachir El Dik a partir de uma história de Muhammad Khan, da realização de toada neorrealista Atef El-Tayeb, e da fotografia de Said Al-Shiemy que reside a grande força de “The Bus Driver”, em particular a forma como o diretor de fotografia coloca o espectador dentro do filme, seja num autocarro abarrotado onde os passageiros tropeçam nas entradas ou saídas, seja dentro da viatura de Hassan, que por entre muitas malapatas e desilusões com os parentes tem ainda de lidar com um assalto e agressão por parte dos bandidos.
Paralelamente, o filme fala ainda das dificuldades económicas originadas pela “política de portas abertas” do mercado, com a passagem de uma economia controlada pelo Estado para a liberalização económica durante as décadas de 1970 e 1980, da diferença de classes, de violência doméstica e de casamentos por conveniência, apresentando, derivado da época em que foi assinado, uma visão masculina da sociedade que não deixa de deixar bicadas a uma toxicidade geral.
A sala do Cinema Hanager no Cairo encheu para ver esta relíquia egípcia que, curiosamente, passou por Portugal em 1984, no já extinto Festival da Figueira da Foz. E vibrou ferozmente com Hassan a esmurrar um larápio que representa tudo o que de errado a sociedade da época carregava.

