Começamos o dia com o visionamento de Miele (Mel), a estreia na realização de Valeria Golino, como forma de preparar a entrevista agendada. Os receios da abordagem de um tema tão pesado como a eutanásia acabam por ser mitigados pela surpreendente forma como Golino se revela dominadora do olhar de realizadora, evitando cair no lugar comum ao seguir uma jovem que se dedica a aliviar a dor de pacientes cansados de viver em suicídios assistidos. Uma atividade ilegal que acaba por lhe trazer um modo de vida confortável, até o encontro com um candidato a essa morte assistida que a faz acordar para a dúvida. O filme teve estreia mundial em Cannes, na Secção Un Certain Regard, onde acabou por ganhar uma menção especial do júri ecuménico. Mesmo sem deslumbrar e não sair de um lado mais convencional, Miele abre uma nova frente de debate do tema, sublinha o talento de Jasmine Trinca, uma atriz notável sem nunca ter estudado arte dramática e até as ferramentas que parecem habilitar Valeria Golino em novas aventuras atrás da câmara.
O c7nema falou com a atriz e realizadora em Karlovy Vary, logo após a sua masterclass. Abordamos o tema da eutanásia, a realização, e futuro e… Tom Cruise.
Porque escolheu esta história para se estrear na realização?
Antes demais, já tinha feito uma curta (Armandino e il Madre, em 2010). Mas tenho razões variadas. Algumas posso falar, outras serão pessoais. Em primeiro lugar era um tópico que me interessava. Estive dois anos a pensar em como poderia contar esta história sem tomar um ponto de vista político. Queria estar preto da história, mas sem ter certezas. Como uma cidadã.
Qual é a sua posição na matéria?
Se me pedirem a opinião, claro que sou a favor. Mas quero estar com eles e não contra ninguém. Não quero provocar ninguém.
Como foi recebido o filme pela igreja?
Em Cannes recebi o prémio ecuménico, uma menção honrosa… Nem sei se deveria ficar satisfeita… Mas esse é o meu preconceito. Só que a razão foi justificada, pois achavam que o filme estava para além do bem e do mal. Foi por isso que eu quis ser realizadora.
Essa vontade de ser realizadora já se tinha manifestado há muito tempo? Pergunto isto porque revela alguma maturidade na realização…
Eu andava para fazer este filme há cerca de dez anos. E ao longo da minha carreira tenho observado muito o que toda a gente fazia, incluindo os realizadores. O que se fazia bem e sobretudo o que poderia, no meu entender, ser melhor. Por outro lado, sempre fui documentando tudo o que fazia com imagens, um registo que é também uma paixão pela imagem e pela luz. Foi por isso que me tornei realizadora.
Alguém em particular a inspirou?
Sim, o Sean Penn, com quem trabalhei em em União de Sangue (1991), a estreia dele na realização. Foi eme quem me disse para reparar naquilo que os outros faziam mal (risos). Por acaso, ele está neste momento em Barcelona com a minha atriz Jasmine Trinca.
A sério? Como realizador?
Não como ator, bem como o Javier Bardem. No filme do Pierre Morel, uma produção americana, do Joel Silver.
No seu caso, por onde passa o seu futuro mais imediato como atriz?
Vou filmar Il Bambino Invisibile, com o Gabirele Salvatores, com quem fiz Puerto Escondido (1992), no México, na altura em que ganhou o Óscar por Mediterrâneo. Aliás, ganhou o Óscar quando estávamos no México em filmagem. Eu sou a primeira atriz a voltar a trabalhar com ele. O filme é uma fantasia, pois este menino invisível é uma espécie de super-herói e eu sou a mãe dele.
Pergunta inevitável: a Valeria trabalhou com o Tom Cruise em Encontro de Irmãos, numa altura em que ele estava no auge da sua carreira. Pode recordar-nos essa experiência?
Antes de mais, tenho de dizer que sempre gostei do Tom Cruise. E nessa altura ele estava lindo! Estava num momento de graça, mas era generoso, disciplinado. Já ouvi muitas coisas sobre ele, mas comigo sempre foi incrível.
(Artigo originalmente publicado em junho de 2013 – C7nema em Karlovy Vary (Dia 5))

