São precisos 14 minutos para vislumbrarmos pela primeira vez o rosto da mãe de Rita, uma menina com quase sete anos, que vive com a família (pai, mãe, irmão) numa pequena localidade perto de Sevilha, em 1984. E essa ausência de rosto não apenas mostra a invisibilidade da matriarca numa relação marcada pela violência, física e verbal, mas também nos conta que Paz Vega, atriz em estreia na realização, que interpreta ela mesmo o papel da mãe de Rita, vai posicionar frequentemente a câmara ao nível da altura de Rita, mostrando a sua visão dos factos naquela década, numa abordagem fundamentalmente sensorial.
Mais conhecida pelo seu papel em “Lúcia e o Sexo” de Julio Medem, mas também pela presença na comédia romântica com Adam Sandler, “Spanglish”, Paz Vega enche-se de nostalgia, mas sem qualquer saudosismo, para retratar uma época e o espaço (Triana, um distrito de Sevilha, na Andaluzia espanhola) onde cresceu, fazendo uma fábula de amadurecimento que mostra que, com muitos anos de distância, a violência doméstica que assistimos recentemente no megasucesso italiano “Ainda Temos o Amanhã”, de Paola Cortellesi, se prolongou no sul da Europa com toda a naturalidade. Mas ao invés da italiana, que coloca a sua protagonista, Délia (interpretada pela própria Cortellesi), no foco da lente cinematográfica, é a pequena Rita o centro das atenções, nos bons e maus momentos.
A relação com a mãe, uma doméstica, o pai, um taxista, o irmão mais pequeno, e um amigo que encontra na mesma rua, preenchem os espaços de memória que Rita nos faz seguir, sendo logo no início perceptível, após um ataque verbal do pai da pequena à mãe, depois da carteira desta, com 3 mil pesetas, ser roubada, que tipo de filme vamos assistir e que a tragédia pode ocorrer a qualquer momento. Ainda assim, e usando a perspectiva da criança, muitas das discussões e agressões no casal são apenas captadas por sugestão das mesmas, já que Rita e o seu irmão se refugiam no quarto durante as discussões, ficando o espectador com eles a ouvir o bruaá.
A Espanha a que temos acesso é a que vibra com o campeonato da Europa de futebol a decorrer, mas está em profunda transição na esfera política e social, com decisões, como a possibilidade do divórcio, a serem já possíveis, mas renegadas pela população devido à sua religiosidade. O espectador vai tendo acesso a isso através da rádio e TV, enquanto Rita e irmão passam pela infância entre idas à piscina, jogos de flippers e outras brincadeiras, focando a cineasta não apenas os objetos que encantam os pequenos, como um canivete ou um ar condicionado, mas principalmente as suas sensações e emoções perante eles. É no distanciamento do casal, manifestado pelas discussões e saídas em separado com as crianças, que o espectador vai montando o puzzle da situação que Rita vive em casa, com a direção de fotografia e a montagem a darem muita luz nas cenas exteriores a uma infância que entre quatro paredes prima pelas sombras.
Existe uma extrema ternura e sensibilidades no trabalho de Paz Vega atrás das câmaras, usando principalmente os gestos, ao invés das palavras, para conduzir o espectador às suas personagens e relações. E nessa jornada, um naipe de atores em boa forma, com destaque para a pequena Sofía Allepuz no papel de Rita, vai nos encantando e desiludindo com as suas vidas. Vidas simples, mas confortáveis para a década, sem dúvida, mas que escondem nos seus alicerces toxicidades machistas e patriarcais que ainda hoje, infelizmente, persistem.




















