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«O Traidor»: Marco Bellocchio nos calcanhares da máfia

Foto.: Marcio Amaro

Na lista de potenciais apostas para Cannes, em 2019, há um trabalho inédito de um mestre do cinema moderno italiano que, hoje, corre contra o tempo a fim de conseguir uma vaga na luta pela Palma de Ouro: Marco Bellocchio vem aí com Il Traditore (O Traidor).

Na imprensa europeia, a nova longa-metragem do realizador de Vincere (2009) é encarado, desde já, como uma das mais ousadas promessas autorais do cinema do ano, ao reviver o drama real do mafioso Tommaso Buscetta (1928-2000). Na fotografia de Vladan Radovic (de La Pazza Gioia) há um olhar atento para as paisagens cariocas, seja em Santa Teresa ou na Praia de Abricó, uma mirada curiosa sobre Colónia, na Alemanha, e um olho atento para a geografia italiana. Bellocchio tem nas mãos horas e horas de material rodado no Rio de Janeiro que recriam a atmosfera de transformação política da cidade, no início dos anos 1980 (ainda em dias de ditadura), quando  Buscetta fez o Brasil de lar, no abraço sempre caloroso da sua mulher, a carioca Maria Cristina de Almeida Guimarães.

Uma das sequências, ambientada em Roma, mas rodada numa clínica em Botafogo (RJ), pelo realizador de 79 anos, recria uma visita do gangster (vivido pelo ator Pierfrancesco Favino) a um cirurgião que operou seu rosto (papel de Nicola Siri). Com faixas na cabeça, ainda sob a dor da cirurgia, o criminoso - que aderiu à Cosa Nostra aos 17 anos, a fim de driblar a pobreza nas ruas de Palermo - vê ali o que pode ser o seu futuro... a sua redenção... ou a sua queda. Essa é a discussão aberta por O Traidor, que encerrou as suas filmagens no Rio a dia 22 de dezembro, tendo os irmãos Caio e Fabiano Gullane (Que Horas Ela Volta?) como os seus produtores brasileiros. E coube à atriz Maria Fernanda Cândido viver Maria Cristina numa trama que promete fugir de todas as convenções dos filmes de máfia.

Aclamado pela crítica mundial já em sua estreia no formato de longas, com I Pugni In Tasca (De Punhos Cerrados, 1965), Bellocchio não pretende fazer um novo The Godfather e sim fazer uma investigação antropológica sobre a traição como rito. Escondido aqui para evitar um derramamento de sangue que custara a vida dos seus filhos, Buscetta foi preso no Rio, acusado de tráfico internacional de drogas e extraditado. Conseguiu fugir da cadeia e retornou ao Brasil, de onde foi expulso pela segunda vez em 1983. Foi então que fez o acordo para delatar centenas de criminosos e expor as conexões da Cosa Nostra com a política italiana. É esse troco que ele dá em seus ex-colegas o que mais intriga o veterano cineasta, nesta produção estimada em €7,5 milhões.

Pierfrancesco Faviano l Foto.: Marcio Amaro

Para evitar que a representação do Brasil incorresse em algum deslize histórico, Bellocchio trouxe para o filme o cineasta paulista André Ristum, vencedor do troféu Kikito de melhor direção em Gramado, este ano, por A Voz do Silêncio. Ristum viveu na Itália e foi assistente de Bernardo Bertolucci (1941-2018) em Stealing Beauty (Beleza Roubada, 1996). Ele entra em O Traidor como produtor delegado, ajudando Bellocchio na harmonia com a realidade nacional. Cada dia, ele reinventava uma sequência, pedindo aluguer novo ou inventando uma situação a ser encarnada para o seu elenco, que traz mais dois talentos brasileiros, o de Luciano Quirino (9mm São Paulo) e o de Jonas Bloch (Amarelo Manga) à sua trupe, lotada de italianos e iluminada pelo empenho de Maria Fernanda. Com a palavra, Bellocchio:

Vindo do realizador que fez marcos políticos como La Cina è vicina (A China é aqui), é difícil crer que O Traidor será um filme de máfia tradicional. Estarei errado?

Não é o mafioso que me interessa. É o sujeito por trás dos crimes. Quero que O Traidor seja um filme sobre escolhas e também um filme sobre as pessoas que pagam o preço pelas decisões que tomamos. O que me interessa aqui não é quem Buscetta traiu e sim o facto de ele ter traído pessoas que traíram um projeto histórico de organização criminal. Havia um código de honra. E essa “lei” foi desrespeitada.

O que a honra representa aos olhos de um cineasta que sempre desmontou lógicas institucionais?

Honra é um parâmetro de respeito, um local que não pode ser transposto sem um autocarro que, no caso, é pago em sangue. Existia um código de honra que norteia Buschetta e os homens que integraram a Cosa Nostra na época em que ele aderiu à máfia, lá pelo fim dos anos 1940, quando a tradição era lei, sem que se matassem padres, mulheres e crianças no jogo do crime. Este filme é um estudo sobre a dimensão moral que cerca uma traição, gesto que depende da palavra, desafiando o que foi escrito, ideologicamente, nessa tal tradição. Sou um cineasta atento ao silêncio, que busca um entendimento da dimensão trágica da quietude, da introspeção. Mas aqui, encontro uma situação na qual palavra é ação: é trair quem traiu o passado.

Qual é a identidade dos traídos nesta narrativa de tons policiais?

Aqueles que modificaram uma norma mafiosa que se pautava pelo cuidado com a vida alheia. A traição de Buscetta, ao delatar a Cosa Nostra à Justiça da Itália, é carregada de ambiguidade. E essa dúvida é a minha linha narrativa no filme. Ele não trai por conveniência. Ele trai porque, antes dele, com a entrada do tráfico de drogas nas atividades da máfia e uma guerra de sangue, alguém desrespeitou aquilo que antes era sagrado para eles. E o sagrado é, justamente, a palavra. A palavra da honra. Venho de um mundo que testemunhou o fascismo ascender ao passar como um tratar sobre os limites dos direitos individuais. E é isso o que me empurra a essa história de Buscetta. Ele vem de um mundo cuja pobreza cresceu como um saldo do fascismo.

Qual é a metáfora que existe nas mudanças constantes de aparência de Buscetta, com uma série de operações plásticas?

Isso é uma factualidade, não uma analogia imbuída de algum sentido estético específico. O meu desejo é apenas respeitar a História. Há uma instituição que se descaracteriza em nome do dinheiro: com a entrada no tráfico de heroína, algo muda para a Costra Nostra, o que leva Buscetta a repensar o seu lugar e a se afastar para se defender. O Brasil vira mais do que uma rota de fuga na sua trajetória. Aqui ele forma família, cria raízes, mesmo mudando de rosto, em operações plásticas. Essas mudanças não entram como metáforas na minha perceção dessa personagem, pois é o que existe na sua intimidade que mais me interessa. Há uma coerência nos seus atos que as palavras não explicam. É o que eu fui buscar para entender nas imagens deste filme.

Marco Bellocchio l Foto.: Marcio Amaro

Buscetta fugiu para o Brasil pela primeira vez nos anos 70, no meio de uma disputa por poder na máfia siciliana, sendo capturado aqui pelo regime militar vigente. Qual é a sua impressão acerca desse Brasil de farda?

Não sei se consigo fazer uma analogia entre a situação do Brasil da ditadura e a situação política que vocês vivem hoje, em meio de uma discussão sobre repressão. O que posso dizer é que, no período em que Tommaso foi detido, havia uma preocupação do governo militar de que a presença de um mafioso internacional não atrapalhasse o Poder vigente de forma alguma.

Na sua formação, em Roma, o senhor chegou a ser colega de escola do carioca Paulo Cezar Saraceni, diretor de Porto das Caixas, morto em 2012. Que recordações o senhor guarda do Brasil daquele período?

Foram muitas. Ali, descobri contradições que formam o Brasil, o seu país. E dali saiu a centelha a partir do qual Paulo Cezar fez grandes filmes como A Casa Assassinada. Paulo era o homem da poesia na nossa escola.  



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