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«Una Mujer Fantástica» por Paulo Portugal

“Marina e Orlando estão apaixonados e planeiam o seu futuro”, assim iniciam as notas de produção do filme do chileno Sebastián Lelio, Una Mujer Fantástica, um dos principais candidatos a conquistar o Urso de Ouro na 67ª edição do Festival de Berlim, a par, talvez, da entrega de Kaurismaki, The Other Side of Hope.

Mudará alguma coisa se soubermos que Marina é transexual? Pois não devia, já estão ausentes na personagem e no filme quaisquer elementos de uma eventual causa de género sexual. Assim é o cinema de Sebastián Lelio, que há quatro anos fez furor aqui, na Marlene Dietrich Platz, com o arrebatador Glória, sobre uma outra personagem feminina que supera, neste caso, o divórcio e assume a sua feminilidade sem necessitar que o façam por ela. A grande Paulina García haveria de ganhar o Urso de Prata pela Melhor Interpretação feminina da Berlinale. Daniela Vega pode não ter essa enorme carreira do teatro e cinema atrás de si, mas não lhe fica nada atrás neste filme que nos desafia e se intromete na nossa consciência para nos segredar perguntas. É, por isso mesmo, um filme que supera géneros, um filme trans-género. Uma preciosidade.

Voltemos então a Marina e Orlando (Francisco Reyes). Apesar da grande diferença de idade, percebemos que vivem um amor sincero e profundo. Percebemos isso logo na cena inicial quando a artista que canta retribui a este homem um olhar de desejo apesar das letras da canção parecerem dizer o contrário. Os planos incluem uma viagem ao Brasil para ver as cataratas de Iguaçu. No entanto, estas férias não se irão concretizar. É que, depois de uma noite de festa e amor, Orlando sucumbirá a um aneurisma cerebral. Aqui começa outro filme, o de Marina que acorda para essa perda insubstituível, mas também para a realidade da família que não a aceitará a sua identidade. Uma das cenas mais fantásticas do filme será o momento em que o sofrimento e determinação de Marina recebe a metáfora adequada ao enfrentar uma súbita tempestade em que a força do vento a obriga a vergar-se para diante num ângulo quase impossível.

 

Assim é o seu dilema. O mais fascinante no cinema orgânico de Sebastian Lelio é essa forma delicada e natural, quase clássica, de fazer nascer diversos fios narrativos sem nada impor. É o drama humano que domina sobrepondo-se a quaisquer agendas de direitos humanos e de géneros, graças a uma nova colaboração com o argumentista Gonzalo Maza, prolongada de Glória. É claro que a tentação de falar de Almodóvar por parte de alguma imprensa foi irresistível, embora, na verdade, essa referenciação falha, pois em nenhum momento existe a atitude do orgulho de classe, a afirmação sublinhada pelos tiques da ordem tão constantes em Almodóvar. De Marina apenas vemos um elemento feminino desamparado pela falta, embora não submisso quando os limites ficaram já para trás. Talvez a referência mais inesperada seja a aquela em que James Stewart procura ver outro corpo através das mudanças de visual em VertigoA Mulher que Viveu Duas Vezes.

Essa personalidade feminina renasceu para nós também quando fomos à procura da delicada e atenciosa Daniela Vega um dia depois da estreia mundial do filme, para uma inevitável entrevista. Foi aí que confirmou tudo aquilo que já era Marina, também ela a afirmar-se como atriz e cantora. No filme, tal como na vida, Daniela assume-se como um verdadeiro “Cavalo de Tróia” que se instala como um vírus e nos leva a questionar-nos a liberdade na sua forma mais básica. 


Paulo Portugal



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