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«Silence» (Silêncio) por Hugo Gomes

Será Silêncio a esperada epopeia da carreira de Martin Scorsese? O projeto constantemente adiado, por diversas vezes caracterizado como o “filme de uma vida” para o nosso movie brat, resultou numa obra que falha os objetivos do cinema mais ocidental.

Scorsese, atualmente detentor de uma liberdade vivida nos grandes estúdios (e O Lobo de Wall Street foi o exemplo dessa “delinquência criativa”), afasta-se completamente do círculo fechado do chamado “Filme de Óscares” e aposta num storytelling sobretudo oriental. Aliás existem referências, planos “copiados” e uma fotografia que nos situa no foco do cinema nipónico, passando por Mizoguchi, Ozu e claro, visto o realizador ser um assumido admirador, Kurosawa. Talvez essa panóplia cinéfila nos satisfaça como o prazer de uma memória arrastada numa sétima arte fora dos habitués de Hollywood.

Mas Silêncio reserva-nos mais que uma loja de souvenirs. É um filme sobre a fé, concebendo (da mesma maneira que A Última Tentação de Cristo o fizera em 1988) um autêntico lobo sob vestes de cordeiro.  Curiosamente, o primeiro visionamento de Silêncio ocorreu no Vaticano sob o olhar de cardeais, bispos, jesuítas, e por último e não menos importante, o Papa Francisco, que declarou o seu agrado com o resultado final. Mesmo sendo um filme de fé (Martin Scorsese é um homem crente), Silêncio apodera-se de uma história de época (baseado no livro de Shûsaku Endô, anteriormente adaptado por Masahiro Shinoda em 1971) para entranhar-se como um statement crítico às bases das instituições religiosas, um enredo que se inicia com a viagem de dois padres jesuítas portugueses a um Japão feudal que teima em não ser “batizado”.

A perspetiva cristã evidencia-se como uma “pala”, cozendo-se em tendências colonialistas e obtendo como resposta a selvajaria de uma civilização do Oriente. Andrew Garfield (que aprende japonês, mas nunca uma palavra portuguesa com excepção de “Paraíso”) assume o protagonismo em mais uma “cruzada” após o fracasso de Hacksaw Ridge, o filme antiético do extremista Mel Gibson. A sua personagem em Silêncio serve como uma catarse às entidades heróicas que hoje tendem em posicionar-se na base do cinema norte-americano. Porém, a câmara não filma tal heroísmo.  Scorsese recusa a promover o seu catolicismo materializado. Passando por um efeito “desastre” à lá Herzog, sentimos neste primeiro terço, os toques de uma animalidade produtiva, algo que possa ser equiparado a um Fitzcarraldo.

No segundo tomo, somos envolvidos em personagens nipónicas budistas que, gradualmente, rasgam os seus disfarces de antagonistas sádicos. A partir deste momento o confronto entre as duas crenças levam o espectador a uma tremenda “faca de dois gumes”: De um lado, os métodos primitivos de induzir a fé instantânea e, do outro, a arrogância do nosso herói em "espalhar a sua verdade".

A caminho recto do desfecho é que contactamos com a dimensão crente de Scorsese que se esconde num filme multi-disfarçado, nada contra a essas declarações de fé. Aliás, a Humanidade de hoje é incapaz de viver longe de tamanhas convenções afectuosas, idealistas e até politicas ("a religião é o ópio do povo" como dizia Karl Marx). O que de impressionante Silêncio possui na sua jornada é a sua fidelidade com um templant meramente oriental, a evasão ao evangelismo e a concretização de uma fé unificada.

"Step on me, my Child", sussurra Jesus num verdadeiro ato de aparição, ligando este filme fora do seu tempo, seco e empestado pelas inúmeras referências (hoje incontornáveis), ao seu A Última Tentação de Cristo, umbilicalmente unindo a mistificação do primeiro com a desmistificação do martírio do segundo. O sofrimento em via-sacra de Garfield, as suas arrogantes aspirações em tornar-se num Messias de uma Igreja megalómana, pode muito bem tecer o paralelismo com a sedução de Satanás perante o Nazareno no seu retiro no Deserto, na dita obra de 1988.

Um Admirável Velho Mundo sob a sonoridade minimalista da dupla Kluge, num dos maiores injustiçados da award season. Já agora, fica a recomendação da semi-versão portuguesa, Os Olhos da Ásia, de João Mário Grilo, datado de 1997.

 

Hugo Gomes



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