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«Two Mothers» (Paixões Proibidas) por Roni Nunes

Aparentemente já nada mais pode chocar o espectador nos tempos que correm, mas Paixões Proibidas vem questionar seriamente os limites da aceitação que os avançados habitantes do século XXI são capazes. E o faz, como tantas vezes em tempos mais puritanos, com uma história romântica. Uma não, duas. Trata-se dos relacionamentos afetivos que as grandes amigas de infância Lil (Naomi Watts) e Roz (Robin Wright) acabam por acidentalmente estabelecer com os jovens filhos uma da outra – e em simultâneo. Lil apaixona-se por Tom (James Frecheville), filho de Roz que, por sua vez, envolve-se com Ian (Xavier Samuel), filho de Lil. Ambas são correspondidas.

Mas os anos 60 e o seu espírito libertário já lá vão e a ideia por aqui nada tem a ver com propor uma nova forma de viver em comunidade. Tampouco presta-se às liberdades do cinema de autor dos anos 60 e 70. Paixões Proibidas, pelo contrário, envereda pela abordagem realista dos romances, mostrando os seus protagonistas a lidar com questões bem concretas – particularmente com as diferenças de idade entre os amantes. Daí para sentimentos de culpa e os dramatismos é só um passo.

Diante desta opção, só um verdadeiro malabarismo na realização de Anne Fontane para evitar que o filme afunde num insuportável melodrama de telenovela. A realizadora francesa acaba por demonstrar como, diante deste, era fútil O Meu Pior Pesadelo, filme com o qual circulou em Portugal no ano passado. Com uma verdadeira batata quente nas mãos (o conto original de Doris Lessing), ela faz um trabalho notável – a dar credibilidade a uma história difícil. O trabalho dela, a adaptação de Christopher Hampton, um os melhores argumentistas do mundo, e a qualidade do elenco (com destaque para Robin Wright, intensa e subtil), garantem a qualidade do resultado.

A conceção visual do filme, por sua vez, soube interligar bem o drama dos protagonistas com as paisagens do litoral australiano, apoiando-se nas belezas naturais e nas cenas de surf para desafogar o ambiente – intenção apoiada pelos numerosos (demasiados, talvez) insights com os quatro personagens em amenas cavaqueiras.

Paixões Proibidas tem sequências de emoção e beleza, mas o tratamento da história também não evita momentos constrangedores. Ao mesmo tempo, nem sempre consegue escapar do esquematismo do seu conceito de fundo – pois, apesar de estabelecer variações nas reações dos personagens, não é muito provável que quatro pessoas compartilhem um envolvimento afetivo e sexual na mesma proporção e intensidade.

O Melhor: a realização sem máculas de Anne Fontane, a dar credibilidade a uma história original difícil
O Pior: não consegue escapar ao esquematismo da conceção e nem de roçar perigosamente no ridículo


Roni Nunes



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