Realizadora de filmes como Dead Pigs (2018) e Birds of Prey (2020), Cathy Yan estreou este fim-de-semana no Festival de Sundance a comédia negra The Gallerist, uma sátira ao mundo da arte contemporânea, que coescreveu com James Pedersen.
No filme, que foi exibido no certame, tal como The Invite, na secção de antestreias (Premieres), Natalie Portman é Polina, uma galerista em dificuldades que tenta afirmar-se profissionalmente após um divórcio, investindo o que lhe resta na abertura de um espaço durante a semana da Art Basel, em Miami. A situação descamba quando um influenciador de arte, interpretado por Zach Galifianakis, morre dentro da galeria, antes da inauguração oficial.
Kiki, assistente da galerista, interpretada por Jenna Ortega, quer chamar a polícia, mas Polina decide transformar o cadáver numa oportunidade mediática e comercial, passando a apresentá-lo como uma obra de arte ultrarrealista. É a partir desse momento que The Gallerist expõe, com humor ácido, o cinismo do mercado onde o valor artístico parece depender mais da história que se conta e da especulação do que da criação em si.
“Sempre me interessei muito pelo mundo da arte e pela forma como se questiona o que é arte, qual é o seu valor, quem tem direito a decidir isso, quem conta estas histórias e em que contexto”, afirmou Cathy Yan em Sundance, durante a sessão de perguntas e respostas do filme. “A questão central é muito próxima do que fazemos enquanto artistas”, acrescentou Natalie Portman à audiência. “É uma espécie de alquimia: algo que vem da nossa alma transforma-se em mercadoria. Há magia nisso, mas também há horror.”
Referindo que hoje existem fundos de investimento que compram obras de arte e as guardam como barras de ouro, Portman questionou o que isso significa para quem cria e depende do mercado para continuar a criar.
A realização de The Gallerist aposta numa linguagem visual que oscila entre dois registos distintos. No início e no fim do filme, a câmara mantém-se estática, quase como um objeto artístico em si mesma, assumindo uma posição observacional um pouco distante. À medida que os eventos se intensificam, a câmara torna-se mais móvel e instável, acompanhando o estado interior de Polina, marcado pelo stress e pela desorientação.
Além de Portman e Ortega, o elenco inclui ainda Catherine Zeta-Jones, Daniel Brühl, Charli XCX, Da’Vine Joy Randolph e Sterling K. Brown.

