Dois anos após “Sonne”, no qual seguíamos três adolescentes de Viena que se tornam famosas da noite para o dia, especialmente entre os muçulmanos curdos, quando um vídeo delas – a dançar twerk de hijab e a cantar uma música pop – é publicado no YouTube, a cineasta curda, nascida no Iraque, Kurdwin Ayub regressa com “Mond”, na competição ao Leopardo de Ouro do Festival de Locarno.
Em “Mond” estamos na Jordânia, país para onde Sarah, uma antiga lutadora MMA, se dirige para um trabalho que lhe parecia simples: ensinar a três jovens artes marciais. Porém, a família rica que a contratou tem uma relação tóxica com as jovens, as quais, entregues à sua condição de serem mulheres, pouco ou nada podem fazer no seu dia a dia. Progressivamente, e à medida que Sarah se aproxima das três mulheres, ela começa a entender que é apenas mais um peão de obediência cega num jogo de castração da liberdade. “O ponto de partida para este filme foi a de uma lutadora ir para um local e ser-lhe impossível lutar”, explicou Kurdwin Ayub ao C7nema. “Os meus parentes no Iraque já me contaram histórias destas. Não acontece sempre, mas estes casos existem. Creio que queria mostrar as diferenças, mas também as similaridades em ser uma mulher neste mundo. A conjuntura em que uma mulher se sente encurralada, onde quer que elas vivam”.
Reconhecendo que queria “quebrar as expetativas” e os habituais estereótipos ao não apresentar uma “salvadora branca” a resolver pela pancada uma questão complexa, Kurdwin tinha Florentina Holzinger, que interpreta o papel da ex-lutadora de MMA, na sua cabeça quando escreveu o guião. “Ainda assim fiz-lhe uma audição”, revela-nos, detalhando o processo de seleção: “Ela tem um talento natural e sabia o que esperar dela. E pensei nela porque sei que aprendeu artes marciais no passado. Por isso, a luta não era algo novo para ela. Também gostei muito da sua personalidade, que encaixa perfeitamente nesta personagem”.


Quanto às três jovens que vivem encurraladas numa mansão, o casting foi mais desafiante: “Como tivemos uma equipa totalmente europeia a filmar na Jordânia, foi difícil fazer o casting localmente. As famílias não confiavam em mim. Chegou a haver um rumor, pouco depois de chegarmos, que estávamos a fazer um filme lésbico, por termos quase só mulheres no elenco. Bem, se calhar é estranho alguém ir da Europa à Jordânia procurar por jovens em tenra idade (risos). Como era um filme com e sobre mulheres, havia muita desconfiança. No Médio Oriente, a família tem muita força e se não querem que atues num filme, então não atuas”. Além disso, a realizadora queria alguém que soubesse o que é viver nesse luxo, dando o exemplo da escolha de Andria Tayeh, que faz de Nour, uma atriz e influencer famosa no Médio Oriente.
Para criar a dinâmica de grupo, a realizadora diz que passou muito tempo com o elenco e que encenaram muitas cenas que nem faziam parte do filme, para as atrizes crescerem com o pano de fundo para o que iriam viver na fita. “O casting era extremamente importante para ver se elas se encaixam umas nas outras. Por exemplo, duas das atrizes ficaram muito amigas depois das rodagens. E esse trabalho com os atores não foi só com elas, mas também com quem faz de irmão delas, o Omar“.
Produzido pela Ulrich Seidl Filmproduktion, do austríaco Ulrich Seidl, “Mond” tem nos créditos, como produtora associada a realizadora germânica Veronika Franz, que Kurdwin define como a sua “mentora”: “A Veronica Franz é a minha mentora. O Severin Fiala é meu amigo desde os meus 18 anos. Todos nós neste grupo temos o humor negro em nós. O meu filme é da mesma família dos deles. Quis jogar com os elementos de género [como eles o fazem] porque nos faz esperar coisas que podem ou não acontecer”.
Quanto ao futuro, e após dois filmes que falam um com o outro nas questões ligadas às mulheres, Kurdwin diz que está a trabalhar num projeto “maior”. Desta vez ela vai acompanhar a relação entre o Ocidente e Oriente, com a alimentação de guerras em destaque.
O Festival de Locarno termina a 17 de agosto.

