Reflexos traumáticos da II Guerra Mundial empesteiam a paisagem insular que Fatih Akin faz de arena para a sua nova longa-metragem, “Amrum”. Hoje em finalização, esse drama ambientado em 1945 poderá estrear em Cannes, onde o realizador teuto-turco, nascido em 1973, disputou a Palma de Ouro mais de uma vez. A última foi em 2017, com “Aus dem Nichts” (“Uma Mulher Não Chora” em Portugal; “Em Pedaços” no Brasil). Aquele trágico ensaio, em tons de thriller, sobre maternidade deu-lhe o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e valeu o prémio de Melhor Interpretação para Diane Kruger na Croisette. Ela volta a trabalhar com ele na saga de um jovem que luta para ajudar a mãe numa ilha, sem saber que os nazis foram derrotados. É um projeto que está a um passo de ganhar espaço nas telas mundiais, incluindo as brasileiras, que hoje se debruçam sobre o seu legado. Duas décadas depois de exibir “Head-on” (“A Esposa Turca“pt; “Contra a Parede”br), o Brasil revisita a premiada carreira do cineasta, com destaque para a sua obra-prima, numa retrospectiva na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. Neste domingo, às 15h50 (18h50 em Lisboa), a mostra organizada sob a curadoria de Nina Tedesco e Hans Spelzon projeta a produção que o consagrou. É um tempestuoso retrato do benquerer com Sibel Kekilli e Birol Ünel em estado de graça no elenco. A programação, que vai até 2 de fevereiro, abarca tanto a sua estreia nas longas – “Kurz und Schmerzlos” (“Rápido e Indolor”br), vencedor do Prémio do Júri de Locarno, em 1998 – quanto o seu título mais recente, o fenómeno das bilheteiras “Rheingold”br, de 2022.

Na entrevista a seguir, concedida ao C7nema via Zoom, Akin fala sobre como a sua estética “fora da caixa” se constrói.
Em que momento você, que nasceu em Hamburgo, travou contato com as suas raízes turcas, tão presentes nos seus filmes, sobretudo depois de “Head-On”?
Na minha juventude, todas as famílias turcas na Alemanha tinham um aparelho de VHS nas suas casas e era a partir de fitas com filmes feitos na Turquia que nós nos conectávamos com a nossa identidade. Ao começar a filmar, decidi que faria um tipo de cinema mais pessoal, que explorasse as minhas raízes, ainda que trazendo um mix de influências germânicas em mim.
Essas tais influências estão nas franjas do melodrama, um género recorrente na sua obra?
O melodrama está no meu DNA. Embora tenha estudado o expressionismo alemão para fazer o filme “O Bar Luva Dourada”, sinto que “The Merchant of Four Seasons” (O Mercador das Quatro Estaçõespt; O Comerciante das Quatro Estaçõesbr), de Fassbinder, é o filme que mais me influenciou. Fassbinder, em geral, é uma influência forte em mim. “Ali: Fear Eats the Soul” (O Medo Come a Almapt; O Medo Consome a Almabr) teve uma importância grande na execução de “Head-On”.
O cinema alemão hoje o surpreende?
Filmes como “All Quiet on the Western Front” (A Oeste Nada de Novopt; Nada de Novo no Frontbr), não, pois sempre os tivemos, vide “The Fall” (A Queda) e “Das Boot” (A Odisseia do Submarino 96pt; O Barco: Inferno no Marbr). Mas, de tempos em tempos, sim, o nosso cinema me surpreende, sobretudo nas produções realizadas por mulheres, como Valeska Grisebach e Maren Ade, pois trazem um novo olhar para uma indústria que era dominada pela presença masculina.
Quando seu “The Edge Of Heaven” (Do Outro Lado) ganhou o prémio de Melhor Argumento em Cannes, você se dirigiu ao povo turco, no palco do Palais des Festivals, e disse: “Juntos permanecemos, divididos caímos”. Era 2007. O que mudou desde então?
Aquele ano foi uma espécie de ponto de viragem para nós, os turcos, pois vínhamos de uma Era Dourada, que começou em 1999 e acabou ali, depois da morte de um importante jornalista arménio (Hrant Dink), que deflagrou uma série de protestos. Até a execução dele, vivíamos um tempo de euforia parecido com o que a Espanha experimentou após o fim do franquismo. Com a perda dele, as estruturas de poder tomaram-nos de assalto e passaram a nos dividir.
Está feliz com a Alemanha de hoje?
Se estivesse satisfeito com a Alemanha, não seria cineasta.
Quais são os projetos que você tira do papel este ano?
“Amrum” está em pós-produção. É um filme sobre amadurecimento, na aventura de uma mulher e do filho pequeno, numa ilha, onde descobre que a Alemanha perdeu a guerra. Tenho ainda projetos de argumento para uma história de amor e uma saga sobre o colapso do Império Otomano.
Qual é a estrutura financeira que encontra para filmar na Alemanha hoje?
“Amrum” teve um custo de cerca de 6,5 milhões de euros. De modo geral, os meus filmes custam entre 5 milhões de euros e 7 milhões de euros. Quanto maior for o orçamento, mais difícil será levantar o financiamento, sobretudo aquele milhão final que falta para fechar as contas. É sempre o mais difícil.
A sua estética melodramática teve grande retumbância nos territórios lusófonos. O cinema de língua portuguesa de alguma forma te alcançou ou te tocou?
Gosto muito da forma como Walter Salles sabe enquadrar as cidades nos seus filmes. O episódio dele (e de Daniela Thomas) na longa-metragem em segmentos “Paris, je t’aime” (Paris, Te Amo) é o melhor daquele filme coletivo. Respeito muito o seu cinema, e isso bem antes das nomeações ao Oscar de “Ainda Estou Aqui”. Sigo a sua trajetória desde lá de “Central do Brasil”. Como tenho a responsabilidade de alfabetizar os meus filmes com cinema, exibi os “Diários de Motocicleta” (Diários de Che Guevarapt) dele aos meus miúdos, para que eles conhecessem o que fez Che Guevara.

