Uma das graçolas que alguns dos críticos fizeram aquando da passagem de Magalhães pelo Festival de Cannes é que, pelos padrões do seu cineasta, Lav Diaz, o filme certamente seria uma curta-metragem. Com 160 minutos, esta era uma duração bem modesta para alguém associado a obras que frequentemente ultrapassam as seis, oito ou dez horas.
Nome maior do cinema filipino, vencedor do Festival de Locarno em 2014 (From What Is Before), do Prémio Alfred Bauer de Berlim em 2016 (A Lullaby to the Sorrowful Mystery) e do Festival de Veneza no mesmo ano (The Woman Who Left), Lav Diaz sempre dedicou particular atenção às análises coloniais e pós-coloniais do seu país. “Os meus filmes são reflexos de feridas históricas da colonização espanhola, num jugo imperialista que deixou traumas”, disse Lav Diaz no passado ao C7nema, aquando da estreia de “A Estação do Diabo” (2018). Essas palavras fazem ainda mais sentido após avançar para um filme em torno de Fernão Magalhães, o navegador português que chegou à costa filipina em 1521 ao serviço da Coroa Espanhola.
Com Gael García Bernal no protagonismo, Lav mantém-se longe do biopic estandardizado, preferindo antes uma desmontagem paciente, severa e politicamente consciente do mito em torno do navegador português. “Nas Filipinas, trabalho fora da indústria, uso câmaras pequenas, trabalho com poucas pessoas, às vezes até sozinho. Neste projeto houve muitos ajustes naquilo a que se chama produção”, explicou Lav aos jornalistas em Cannes, acrescentando que sente que este filme trouxe-lhe a revelação de como estar em algo maior do que aquilo que tinha feito até aqui. “Foi muito produtivo, deu-me muita energia. Depois das filmagens, pensei: isto abriu-me tantas possibilidades, tantas formas de fazer as coisas. Aprendi muito.”

Nunca olhando para Magalhães como uma figura de descoberta e de heroísmo, mas seguindo as ruínas deixadas pela chamada Era dos Descobrimentos no seu país, em vez de construir uma narrativa de feitos extraordinários, o filme foca-se nas consequências do contacto com os indígenas, seja através dos territórios invadidos, seja nas conversões religiosas impostas. Nesse sentido, Lav Diaz cria um profundo contraste entre a beleza do mundo a que nos deixa aceder e a brutalidade daqueles que o quiseram dominar.
Explicando que o filme nasceu de uma investigação que alterou a sua relação com a figura histórica, o realizador diz que Magalhães sempre esteve presente na História filipina, mas que a pesquisa que efetuou obrigou-o a rever algumas das narrativas estabelecidas. “A narrativa popular fala de colonização, da conversão e de tantas outras coisas. Mas, quando começamos a ler, a investigar e a tentar compreender a mentalidade e o que aconteceu naquele período, o contexto mudou”, confessa.
Um dos pontos decisivos foi a morte de Magalhães e a figura do chamado grande guerreiro malaio que o teria matado. “Percebi que esse homem não existe de todo. Esse suposto guerreiro.” Para Diaz, a investigação tornou-se assim uma espécie de genealogia em que alguns dos pontos simplesmente não batiam certo, uma suspeita que atravessa o filme, pois Magalhães não procura apenas contar o que aconteceu, mas interrogar quem contou, como contou e a quem serviu essa versão. Daí a importância do ponto de vista pós-colonial, onde a escolha de Gael García Bernal para interpretar Magalhães também não foi inocente, nem tão pouco uma busca para capitalizar a fama do ator mexicano.
Gael, que também estava presente no diálogo com a imprensa, reconheceu que a decisão de não escolher um ator português ou europeu tinha uma dimensão simbólica: “A noção comum seria chamar um ator português ou europeu. Mas, na realidade, todas aquelas pessoas que partiram e fizeram essas viagens estão também na origem de nós, os mestiços. Por isso, temos algo a dizer sobre o assunto.”
Nesse sentido, o filme toca no tema da mestiçagem, da mistura e na herança contraditória dos impérios: “Raramente falamos de mestiçagem porque estamos muito marcados pela visão protestante calvinista dos Estados Unidos. Mas, na América Latina e nas Filipinas, houve tanta coisa a acontecer, tanta ligação, tanta interação. Quando Magalhães chegou às Filipinas, aquilo já era chinês, malaio, e existiam pessoas de toda a Ásia. E, quando começaram a interagir, misturaram-se. Noutros lugares isso não aconteceu da mesma forma, mas ali, no México e na América Latina, toda a gente se misturou imediatamente.”

Para Gael, uma das chaves para compreender a figura de Fernão Magalhães era a sua entrega absoluta a Deus, algo que hoje é quase impossível de experienciar da mesma forma. “Estamos muito longe dessa mentalidade.”, diz-nos, sublinhando que naquela época, a vida era miserável em muitos sentidos, mas havia uma clara noção de que a vida depois da morte seria o céu, o paraíso. “Podemos ver isso na estrutura psicanalítica de Magalhães através do seu testamento”, conta Gael. Nele, há duas páginas dedicadas a missas, a dar dinheiro e comida aos pobres, libertar o seu escravo e obter um brasão. “Ele queria que o seu apelido se tornasse alguma coisa. Havia uma ideia de transcendência. Havia a ideia de que tudo valia a pena, de que a sua vida ia significar algo. É uma história muito trágica, porque a sua vida e família foram completamente destruídas.”
Formalmente, Magalhães mantém o rigor de Diaz, mesmo sendo mais curto e bem mais colorido que o cinema habitual do filipino nos oferece. Ele próprio explica que inicialmente o pensamento estético iria novamente requisitar o preto e branco. Contudo, as imagens a cores impuseram-se desta vez: “Toda a gente me dizia: “Lav, tens de reconsiderar, porque as imagens são tão bonitas a cores.” Quando chegámos à montagem final, disse: “Está bem, vamos a cores.” Sou muito aberto à colaboração e a sugestões desse tipo. Se as pessoas veem algo de uma forma mais contextual, sobretudo em termos visuais, temos de abrir a porta a isso. Foi ótimo.”
Diaz confirmou ainda que haverá mesmo uma versão longa do filme, com cerca de nove horas, mas que não se trata de uma simples extensão: “Costumo dizer às pessoas que o primeiro filme é uma viagem ácida e o próximo é o romance. É quase um poema épico. Olhamos para eles assim, como dois filmes diferentes.”
Esta versão de 160 minutos é, portanto, uma porta de entrada para um projeto maior, mas já suficientemente denso para se afirmar como uma das abordagens mais severas e fascinantes à figura de Fernão Magalhães.






