Alexandre Dumas no papel, Bon Iver e Nietzsche na cabeça. “O Conde de Monte-Cristo” chega aos cinemas

Apresentado fora de competição no Festival de Cannes este ano, “O Conde de Monte-Cristo” foi o filme escolhido para abrir a edição 2024 da Festa do Cinema Francês. Agora, a 31 de outubro, o projeto chega de forma alargada às salas de cinema nacionais.

Assinado por Alexandre De La Patellière e Matthieu Delaporte, a mesma dupla que lançou há 13 anos o hilariante “O Nome da Discórdia” e, mais recentemente, o díptico “Os Três Mosqueteiros”, “O Conde de Monte-Cristo” adapta mais uma vez ao cinema um clássico absoluto de Alexandre Dumas sobre um homem detido injustamente no dia do seu casamento, Edmond Dantès, que após 15 anos de cativeiro no Castelo da ilha de If, consegue escapar. Regressando à sociedade sob a identidade do Conde de Monte Cristo, este homem mostra-se pronto para se vingar dos três homens que o traíram.

É uma história de vingança e redenção, mas também com uma belíssima história de amor.”, explicou a dupla de cineastas ao C7nema, em Cannes. “Todos os elementos bem misturados deixam-nos ofegantes. É um trabalho fundacional para nós e quando nos perguntaram um dia que filme gostaríamos de levar ao cinema, dissemos logo ‘O Conde Montecristo’“.

Enquanto Matthieu Delaporte conheceu a história do Conde de Montecristo quando era adolescente, e sentiu-a como “um golpe no coração”, Alexandre De Lá Patellière tem um registo com o projeto mais pessoal já que descobriu no set das filmagens efetuadas pelo pai, Denys de La Patellière, na década de 1970, numa adaptação para a TV. 

“O Conde de Monte-Cristo

Sabendo que o livro já foi adaptado dezenas de vezes ao cinema e à TV, a dupla procurou “encontrar o seu caminho” por entre as 1400 páginas da obra original, não procurando referências nos mundos do audiovisual. “Talvez agora que o filme está pronto me dê ao luxo de ver outras adaptações”, brincou Delaporte, simplificando quando questionado sobre o método de trabalho da dupla: “Acordamos cedo, vamos para o escritório e tentamos criar histórias, Fazemos isto há 20 anos. Somos grandes amigos, como irmãos. É como se tivéssemos começado uma conversa há 20 anos que ainda não terminou. Temos uma linguagem comum e, entre nós, partilhamos o prazer da escrita solitária, mas depois também o da partilha um com o outro (…) Em França, se tentares adivinhar o que o espectador quer ver, vives sempre enganado. Acima de tudo, conta o que queres contar e, com sorte, o que desejas coincide com o que o público quer”.  

Definindo o livro de Dumas como uma obra-prima, “não apenas pela construção dos eventos, mas das personagens”, Alexandre De La Patellière e Matthieu Delaporte explicaram ainda que Pierre Niney foi uma escolha imediata para o papel, ainda antes de começarem a escrever o guião. “Em França temos ótimos atores, mas a maioria deles faz sempre os mesmos papeis. O Pierre tem uma tradição de ator mais anglo-saxónica. Ele é como um camaleão e queríamos alguém para este papel com este tipo de aura. Alguém charmoso, mas também misterioso e capaz de ser obscuro. Sabíamos que iríamos encontrar a personagem nos seus 20, 30 e 40 anos, por isso o nosso ator seria um trintão, simples de dar um ar mais jovem, mas também mais velho. Além disso, teria de ser alguém capaz de interpretar várias personagens vistas sob o ponto de vista do Edmond Dantès; alguém com múltiplas identidades, incluindo a do Conde de Monte-Cristo.” 

Pierre Niney, “o camaleão”

Conhecido por desempenhos marcantes no cinema em filmes como “Yves Saint Laurent” (2014), de Jalil Lespert, “Frantz” (2016), de François Ozon, ou “O Livro das Soluções” (2023), de Michel Gondry, Pierre Niney assume o papel principal em “O Conde de Monte-Cristo”, uma adaptação que considera “muito moderna”, “diferente”, “mais negra e mais trágica” que as anteriores, e que “vai mesmo à transformação física da personagem”. 

Quando temos uma história de amor tão forte com alguém, sentimos logo quando algo soa artificial. Era preciso modernizar, pois hoje em dia as coisas ficam datadas rapidamente”, explicou-nos Pierre Niney em Cannes, confessando que se agarrou à personagem durante as filmagens de modo a “sentir as feridas psicológicas e físicas” pelas quais Edmond Dantès passou. “Quando trabalho o físico para um filme, trabalho também a mente”, explica, sublinhando que o seu processo abrange todos os detalhes, do falar ao andar, passando pela forma como come e mantém a postura: “Este trabalho físico prepara-me mentalmente para os papeis, mesmo que de forma inconsciente. (…) Inspirei-me bastante em músicas e citações. Bon Iver, Chopin e Nietzsche foram propulsores para a minha interpretação. Por exemplo, a música do Bon Iver é bastante melancólica. Na prisão, existe melancolia e algo de fantasmagórico no Edmond Dantès. O Bon Iver ajudou-me a chegar a isso”. 

Afirmando que não tem um método de trabalho padronizado como ator, Niney acredita que se adapta a cada autor que encontra pela frente: “Se esse realizador/encenador não exige particularmente de mim ou não me tenta dirigir, adapto-me com a naturalidade que uso no teatro. Dou o exemplo das filmagens de  “O Livro das Soluções”, que eram muito mais soltas e flexíveis que o “regime mais militar” que encontrei em “O Conde de Monte-Cristo”.

E embora reconheça que a nível pessoal este novo filme não alterou muito a sua forma de ver o mundo, até porque, antes das filmagens, “já desconfiava do ser humano”, Niney reconhece que Edmond Dantès “é um exemplo da violência no mundo” e como a “maldade” que cerca o protagonista vai mesmo “contaminá-lo”: “O medo gera medo. O ódio gera ódio. Os extremos geram extremos. É um círculo vicioso. Creio que isso é importante descobrir para uma nova geração que conhece este mundo de “O Conde de Monte-Cristo”. Esta é uma história intemporal que sobrevive ao tempo e que toca fortemente quem a lê. Inveja, traição, culpabilidade, sede de poder. Mas também um amor quebrado. São temas universais e um espelho de nós. Não são apenas produto de uma época”.

Habituado a trabalhar com Yann Gozlan, como se viu em “Captifs“, “Un homme idéal” e “Caixa Negra“, o ator vai assumir o protagonismo do próximo filme do cineasta, intitulado “Gourou”: “É uma ideia original minha. Algo que tinha na cabeça há muito tempo e que se inspira nos oradores modernos e nos coaches. Vamos começar a filmar em novembro.

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