La Bola Negra ecoa vozes silenciadas

(Fotos: Divulgação)

Em Festival de Cannes, Penélope Cruz sente-se em casa. “Venho aqui desde os meus 25 anos”, disse a atriz, hoje com 52, na conferência de imprensa de La Bola Negra, na Croisette. Em 2008, Cannes exibiu fora de competição o filme que lhe valeu um Óscar, Vicky Cristina Barcelona (2008). Dois anos antes, integrou o prémio coletivo de interpretação atribuído a Volver (2006). Há agora uma expectativa crescente de que La Bola Negra — onde surge numa participação breve, mas marcante — possa conquistar a Palma de Ouro de 2026. A sua defesa da liberdade num mundo ainda marcado pela homofobia assegurou-lhe imediata empatia. “Reajo a tudo o que me parece injusto”, afirmou, justificando a adesão ao filme realizado por Javier Calvo e Javier Ambrossi.

O “já ganhou” em torno desta épica queer, que atravessa o século XX até 2017, espalhou-se pela Croisette como um contágio. As participações de Penélope Cruz e Glenn Close, embora breves, reforçam a visibilidade de uma produção que revisita a Guerra Civil Espanhola e o trauma do franquismo (1939-1975), sempre atenta à homofobia e ao silenciamento de afetos. Trata-se do terceiro filme espanhol em competição este ano, ao lado de El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, e Natal Amargo, de Pedro Almodóvar. As hipóteses de a Palma regressar a Espanha são elevadas, tendo acontecido apenas uma vez em quase oito décadas, com Viridiana (1961), de Luis Buñuel. “Este filme ensina-nos que a memória queer é memória histórica”, afirmou o ator Carlos Gonzalez.

Inspirado no universo poético de Federico García Lorca, dramaturgo assassinado em 1936 por forças ligadas ao regime espanhol, o filme acompanha três histórias gays situadas em épocas distintas, unidas pela morte de um avô misterioso. Um jovem recebe a notícia do falecimento e inicia uma viagem emocional que revisita gerações anteriores, encontrando vestígios de violência, desejo reprimido e tensões familiares acumuladas ao longo de um século. A presença simbólica de Lorca atravessa toda a narrativa, como um fantasma político e afetivo que liga as personagens.

Em cada núcleo dramático, homens gays enfrentam repressão, silenciamento e abandono, mas também descobrem formas de afeto e resistência. A fotografia febril de Gris Jordana reforça essa atmosfera de luto persistente, evocando referências visuais que vão de Francisco de Goya a Pablo Picasso.

“A orientação de Lorca foi escondida, o que significa que nos foi negado um referencial identitário fundamental”, disse Javier Calvo. “Fizemos La Bola Negra para iluminar o que estava na sombra, para que Lorca voltasse a ser falado”.

O festival termina este sábado.

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