Valeska Grisebach em duelo com a arquitetura do cinema de género

(Fotos: Divulgação)

Valeska Grisebach encontra na Bulgária um cinema alemão… quiçá parte do que de melhor se faz na Alemanha em termos de produção audiovisual de ambições autorais. O seu novo exercício criativo, Das Geträumte Abenteuer (The Dreamed Adventure), debate-se com convenções do thriller, com direito a presenças da máfia num espaço onde as pessoas têm preço.

“Na Bulgária, existe uma Europa diferente. Com as mudanças históricas, estamos ao mesmo tempo mais conectados e mais separados”, diz Valeska, que explicou ao C7 o seu interesse por narrativas de género. “Os filões são uma forma de arquitetura para a dramaturgia, na qual se podem ver os conflitos a partir de um mapa de signos. Tudo gira em torno de quem luta, de quem ganha, de quem perde, de duelos. No meu caso, num trabalho com atores não profissionais, fujo dos duelos. Fujo do ‘male gaze’. Foco-me no contraste entre fraqueza e força.”

A trama decorre em Svilengrad, uma pequena cidade na fronteira da Bulgária, nos confins de uma Europa abandonada. Lá, Veska, arqueóloga, reencontra Said, um amigo de infância cujo carro acaba de ser roubado. Ao tentar ajudá-lo, Veska vai-se envolvendo gradualmente no seio de uma organização criminosa que domina a cidade.

“Entendo o interesse de cruzar fronteiras e já sou capaz de perceber o destino de quem procura ganhar dinheiro com quem as atravessa”, diz Valeska. No seu argumento, Veska terá de enfrentar este mundo ao mesmo tempo obscuro e perigoso.

“O som é a dimensão do cinema em que ficção e ciência se combinam para fazer uma realidade parecer natural”, afirma. “Falo da experiência de pessoas que sentiram o impacto das mudanças na Europa no fim dos anos 1980. Falo de sobreviventes. Existem muitas narrativas em conflito neste mundo que se divide.”

Cannes termina na noite deste sábado.

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