Depois de um sucesso moderado com «Impolex» (2009), Alex Ross Perry (na foto acima)surge na rota dos festivais com «The Color Wheel», uma comédia que co-escreveu e co-protagonizou com Carlen Altman e que desafia o espectador com diversos clichés da estrutura das comédias românticas, trucidando-os de seguida de forma laminar com a colocação de elementos impensáveis em situações que chegam a abalar mesmo a moral. O objetivo era mesmo esse, explicou Alex Ross Perry ao c7nema. «Eu queria copiar exatamente a fórmula das comédias românticas – que começam sempre com duas pessoas que se odeiam mas que são, claramente, perfeitas uma para a outra. Depois coloquei-as como parentes como uma espécie de partida» para o espectador.
Tudo isto é apresentado no grande ecrã através do poder dos diálogos naturalistas que nos vão compulsivamente dando pistas sobre as personagens em questão, que neste caso são dois irmãos.
Colin e J.R. odeiam-se mas terão de passar algum tempo juntos quando ela lhe pede ajuda para recuperar algumas coisas que deixou na casa de um ex-namorado (e antigo professor) – que curiosamente foi a fonte de grandes separações de ideias na família de ambos. Durante esses dias, numa road trip monocromática (numa filmagem a 16 mm que Perry diz ser perfeito para este filme e melhor do que alguma vez o vídeo digital conseguiria), os dois vão dormindo em motéis bizarros que só aceitam casais unidos pelo matrimónio. Aí fingem ser marido e mulher para um recepcionista ultra cristão que apesar de Perry nos afirmar que não teve nenhuma inspiração, podia existir em qualquer parte dos EUA. «Os Estados Unidos da América são um sítio feio, cheio de gente estúpida e pessoas detestáveis. É bem possível [encontrar alguém assim]».
Aos poucos e nesta aventura, que até vai passar por encontrar velhas paixões do tempo do liceu, os dois reaproximam-se, sendo os diálogos o verdadeiro combustível de toda a dinâmica da obra e onde não se negam influências de outros cineastas. «Nós vimos o “Manhattan”[de Woody Allen] antes de filmarmos, de maneira a pensarmos como filmar uma comédia a preto e branco. As minhas maiores influências são Vincent Gallo e o Jerry Lewis, dois poetas das neuroses masculinas e das crises existenciais, se é que estas existem.».
E apesar de dar a sensação que o filme vive muito da improvisação, as coisas não são assim tão lineares, afirma veementemente Perry: «Ocorreu muito pouca improvisação. Nós mantivemo-nos fiéis ao guião 85% do tempo, apenas adicionando uma outra piada, aqui ou ali. A estrutura de cada cena, tal como as farpas maldosas que colocamos em cena, foram todas escritas e sem improviso».
Um dos elementos notórios na obra é a química entre Perry e Altman que trabalharam conjuntamente neste projeto ao longo de muito tempo. «Começámos a filmar quase um ano depois de delinearmos a história. No final, foi difícil afastarmo-nos da nossa relação, pois sentimos que tínhamos uma ligação desde sempre.»
O Futuro
Sem aprofundar muito a questão, até porque o segredo é alma do negócio, Perry lá adiantou que está «a tentar fazer uma obra mais íntima que se passa maioritariamente em Nova Iorque sobre o desastroso efeito que o sucesso tem nas relações pessoais, tendo como pano de fundo as traições, o abandono e a ascensão social.».
Sobre projetos de sonho, o cineasta revela muitos mas duvida que esteja mais perto deles após os dois filmes que realizou. «O meu único sonho neste momento é rentabilizar o meu magro sucesso de uma maneira que me permita continuar a viver enquanto surgem novos projetos.».

