O Fantasma da Ópera é a experimentação que abre a 29.ª Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, esta sexta-feira. A realização é partilhada entre Júlio Bressane, reconhecido como um titã do cinema nas Américas pelo seu investimento contínuo na invenção, e Rodrigo Lima, montador e também realizador, companheiro de percurso do veterano cineasta nos trabalhos mais recentes. Em pouco mais de 25 minutos, a câmara percorre um set onde foi rodado Pitico, a próxima longa-metragem da chancela Bressane, para revelar aquilo que habitualmente permanece invisível: o trabalho entre tomadas, o tempo suspenso da criação, o cinema em permanente devir.
Longe de um documentário convencional, este exercício autoral constrói-se como um making of especulativo, no qual imagem e pensamento se encontram de forma sensível e reflexiva, livre de amarras narrativas. Evoca a História do Brasil como fabulação. É um gesto ousado para abrir um festival, mas a Mostra de Tiradentes sempre se sustentou na ousadia.

Inaugurada em 1998, a Mostra ganhou protagonismo no ciclo anual dos festivais de cinema do país, ultrapassando em pouco tempo a notoriedade de eventos mais antigos. É respeitada não apenas por inaugurar um circuito que inclui É Tudo Verdade, Gramado, Brasília, Cine PE e Cine Ceará, mas sobretudo pelo forte investimento na invenção. Raquel Hallak, coordenadora-geral do evento, sublinha o impacto das projeções lotadas, dos debates intensos e dos concertos musicais na economia local, onde o festival gera cerca de 2 500 postos de trabalho.
“Para além do impacto económico imediato, a Mostra produz efeitos estruturantes de longo prazo ao reforçar a imagem de Tiradentes como cidade cultural e destino turístico qualificado, ampliando a sua visibilidade nacional e internacional”, explica Hallak.
Na sua génese, Tiradentes destacou-se pelos prémios de júri popular, atribuídos por plateias divididas entre uma tenda e projeções noturnas ao ar livre. A partir de 2008, sob a curadoria do crítico Cléber Eduardo, o festival mudou de rumo, passando a privilegiar exercícios de risco em detrimento de narrativas de acabamento comercial ortodoxo. Foi criada a secção competitiva Aurora, dedicada a estreantes, que revelou títulos como Estrada para Ythaca, A Falta Que Nos Move e Enchente. O atual reconhecimento das cinematografias de cidades mineiras como Belo Horizonte e, sobretudo, Contagem — hoje presença regular em Roterdão, Sundance, Cannes e Berlim — começou a desenhar-se neste ecrã.
Com a saída de Cléber Eduardo, a curadoria passou para Francis Vogner dos Reis, realizador que concorreu em Locarno em 2021 com a curta A Máquina Infernal. A seleção é agora conduzida por uma equipa alargada, com Juliano Gomes e Juliana Costa nas longas-metragens; Camila Vieira, Leonardo Amaral, Lorenna Rocha, Mariana Queen e Rubens Anzolin nas curtas; e a assistência de Bárbara Bello e João Rego. Este ano, a intérprete Karine Teles é a homenageada, enquanto os 80 anos de Júlio Bressane serão celebrados com um debate no sábado.
“Bressane sabe que os seus filmes — se vistos com a abertura de espírito que exigem — acedem a dimensões da perceção que não conhecemos totalmente”, afirma Vogner ao C7nema. “O cinema é para ele um instrumento de investigação, como um microscópio ou um pincel, mas também um organismo intelectual extremamente sensível.”
A grande aposta da Mostra continua a ser a Competição Aurora. Em 2026, concorrem Vulgo Jenny, de Viviane Goulart; Sabes de Mim, Agora Esqueça, de Denise Vieira; Politiktok, de Álvaro Andrade; A Voz da Virgem, de Pedro Almeida; Para os Guardados, de desali e Rafael Rocha; e Obeso Mórbido, de Diego Bauer.
No sábado, a programação inclui ainda a animação Papaya, de Priscilla Kellen, recentemente selecionada para a 76.ª Berlinale, e Querido Mundo, de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin.

