Militantropos: O retrato íntimo da guerra ucraniana que passou por Cannes e chega ao Porto/Post/Doc

(Fotos: Divulgação)

Depois de passar pela Quinzena de Cineastas, em Cannes, Militantropos (2025) chega agora ao Porto/Post/Doc, na competição internacional, onde volta a confrontar o público com a intimidade brutal de uma sociedade que já não distingue claramente a fronteira entre vida e guerra. 

Assinado a seis mãos por Yelizaveta Smith, Alina Gorlova e Simon Mozgovyi, que juntamente com Maksym Nakonechnyi (que entrevistámos por ocasião de Butterfly Vision) integram o coletivo ucraniano Tabor, Militantropos foi filmado ao longo de vários anos e construído a partir de um arquivo gigantesco de imagens e sons recolhidos no terreno, aproximando-se da guerra não pelos seus movimentos estratégicos, mas pelas cicatrizes invisíveis que ela imprime no quotidiano.

Primeiro de um tríptico apelidado “Os Dias que Gostaria de Esquecer”, Militantropos interessa-se menos pelos avanços e recuos do conflito e mais pela psicologia de viver dentro dele — pela forma como a guerra se tornou um estado permanente, algo com que as pessoas têm de aprender a viver.

Foi nesse espírito de urgência que os três realizadores presentes em Cannes receberam o C7nema. A conversa, atravessada pela memória do polémico primeiro encontro entre Donald Trump e Volodimir Zelensky, na Casa Branca, revelou não apenas o pulsar criativo do coletivo, mas também a inquietação de uma geração moldada pelo conflito e determinada a registá-la antes que o mundo decida esquecê-la. E ficámos ainda a saber que o segundo filme da trilogia terá o nome Cosmomorphosi (2025) – e abordará a ligação entre a guerra na Ucrânia e o mundo exterior –, enquanto o terceiro, Palingenesion (2025), irá centrar-se no conceito de morte na vida quotidiana dos cidadãos em guerra.

Como funcionou a vossa colaboração — três realizadores para um filme? É fácil? É complicado?

Alina Gorlova: Posso dizer que foi fácil porque trabalhámos juntas vários anos em posições diferentes. Por exemplo, o Simon ajudou-me a montar o filme dele, a Yelizaveta montou o filme do Simon, e dessa forma, digamos. Então tínhamos mais ou menos formado uma abordagem visual para isto, e também tivemos três diretores de fotografia, Khrystyna Lizogub, Denys Melnyk e Vyacheslav Tsvetkov. Podem ver isso nos créditos. E isso ajudou-nos a encontrar uma linguagem comum. Encontrámo-la antes disto. E é muito importante que desde 2014 trabalhámos em diferentes combinações no tema da guerra. Por isso tínhamos background e a experiência e pensamentos. Fizemos vários documentários sobre a guerra.

Yelizaveta Smith: Trabalhar num coletivo de realizadores é sobre confiança, primeiro. É sobre a forma de pensar. É sobre o ombro do teu amigo, do teu colega, que te pode ajudar a manter-te de pé quando estás quase a quebrar durante este tipo de filmes, que são super duros mental e fisicamente. E não temos hierarquia com artistas e tudo porque o tema em que trabalhamos e que tentamos explorar é algo que acreditamos que é importante ser visto e feito. Temos ligações horizontais e um entendimento do que queremos, a experiência única de cada um de nós e o olhar único de cada um de nós, que pode ajudar a ir mais fundo na origem do cinema que estamos a fazer.

Simon Mozgovyi: E sobre outro lado do trabalho, claro, às vezes, porque somos realizadores, o ego quer dizer algo por si próprio. Mas quando acreditas nos teus coautores e confias neles e pensas que são óptimos, é muito interessante equilibrar ideias e encontrar compromisso, porque será sempre melhor se falarmos e criarmos algo a partir de diferentes partes.

Mas artisticamente há escolhas: narração, montagem, o que escolher de tudo o que têm. Discutem muito? Lutam pelas imagens?

YS: Às vezes sim. É um processo muito interessante. Claro que acontece.

SM: Às vezes dizes “isto não vai ficar bem”. Sim, não vai ficar bem. Mas outro autor diz: “Tenho a certeza, vamos tentar.” E tentamos e descobrimos que funciona. Eu não pensei que funcionasse. É por isso que eu gosto de trabalho colaborativo — nunca sabes o resultado final.

AG: Foi um trabalho grande — tínhamos 70 terabytes de material na montagem. O conceito e a ideia é desenvolvê-los falando muito uns com os outros e com os DOPs, porque sentimos que eles são coautores sobre significados, sobre como nos transformamos. É um processo profundo e importante para nós como seres humanos, esta colaboração para tentar entender uns aos outros e a natureza do mundo.

SM: Em três anos tornámo-nos uma unidade de cineastas mesmo concreta, de certa forma militar, porque sabemos exatamente o que fazer para ser produtivos, continuar e fazer o processo acontecer.

Porque escolheram filmar não a guerra, mas as consequências — a vida continua, mesmo sem controle…

SM: Para os ucranianos é fácil porque vivemos isso todos os dias: vamos dormir com ataque de drones e não sabemos se vem o amanhã. Era importante transformar estes sentimentos em filme para que o público sinta este perigo no ar.

AG: A guerra é algo que não está num pano de fundo. Filmámos muitos civis que pegaram em armas e começaram a ser exército. 50% do filme é sobre soldados, mas isto não é exército profissional — são professores, músicos, cineastas que decidiram proteger a sua liberdade e as suas casas.

YS: A guerra está à volta. Quando as pessoas dizem “a guerra é má”, é uma perspectiva infantil porque vivemos na guerra. A guerra acontece no mundo inteiro. Quase não há dias sem alguém tentar matar outra pessoa. Temos de falar disto de forma adulta, perceber o valor, como prosseguir em circunstâncias assim. Queríamos mostrar que a guerra também dá uma experiência interessante de unidade, de escolhas, de nos tornarmos mais adultos.

SM: Na trincheira, quando caiu um míssil, vi uma abelha numa flor. Era tão bonito. Fez-me sentir vivo. Isto é parte da guerra também. A vida continua, aconteça o que acontecer. Por isso o filme ficou como ficou.

Militantropos

Existe o risco do vosso filme se tornar apenas “mais um filme ucraniano” em tempos de Guerra? A normalização tira força às imagens?

SM: Mais um filme ucraniano. Mais um dia ucraniano de guerra. Toda a gente está cansada da guerra ucraniana. Mas nós estamos cansados delas estarem cansadas.

AG: Se vives na guerra, normaliza-se. Pensa em Gaza. Nos últimos três anos fez-se uma parte muito importante do cinema ucraniano — é um momento crucial da geração da Ucrânia independente. Não pensámos nisto enquanto filmávamos. Estávamos uma merda. M*rda mesmo, no que sentíamos e pensávamos. Esse era o objetivo.

YS: Nunca pensei em “quero fazer o melhor filme sobre guerra”. Isso é errado. Há uma constelação de artistas na Ucrânia, não apenas uma estrela. Cada filme dá uma perspectiva diferente desta enorme guerra. É uma forma de criar empatia. Não é como ver notícias enquanto bebes café. É mais profundo.

SM: Esta é a guerra mais filmada da história. Haverá muitos filmes, arquivos enormes, som excelente. Investigadores e cineastas do futuro vão trabalhar com isto. Faz sentido para o futuro.

Qual é o poder de artistas e cineastas para mostrar ao mundo o que veem? Como misturam ser artistas, cineastas e a urgência de contar o que está a acontecer?

SM: Parece que estamos longe, mas já não estamos no século XIX. O mundo está muito próximo, eventos rápidos, distâncias irrelevantes. Como parte do mundo democrático, temos de falar juntos. Não podemos enfrentar isto sozinhos. Democracia é escolha — de liberdade, de direitos, de como queremos viver. Lutámos por isso em 2014 e agora lutamos de novo. Às vezes perguntamos: “Fazer cinema chega? Deveríamos ir para o exército?” Mas se a arte é inútil, isso significa que o sistema autoritário já te apanhou por dentro. A arte impede que o medo te lidere.

Este é o primeiro filme de uma trilogia.  Sempre esteve na ideia isso?

AG: Quando enfrentámos a grande guerra percebemos que, como colectivo, já tínhamos tanto material que um filme não chega.

SM: Encontrámos três perspetivas: a primeira é a transformação do humano na guerra; a segunda é a percepção da morte massiva e a vida nessa escuridão; a terceira mostra que esta guerra não é só nossa — como afecta o mundo inteiro. Seguimos o percurso do grão de cereais ucraniano até África. Tudo está ligado.

O que sentem sobre a Europa e o comportamento europeu perante a Ucrânia?

AG: Muitos sentimentos. Estamos gratos pelo apoio, mas a democracia é lenta e isso é perigoso numa guerra. Esperamos que a Europa perceba que o inimigo está perto e que rendição não é opção.

SM: No início senti uma solidão total. Acho que a Europa agora sente algo parecido: estão sozinhos como os EUA. E negociações estranhas, guerra congelada — nada disso resolve. Só adia o pior. A Rússia vai rearmar-se. Quem protege a Europa depois?

YS: O mundo está a mudar. Os valores já não importam à política. Financiamento da cultura cortado. Governos mais totalitários. Estamos numa era digital — precisamos de ligações horizontais entre países. É um momento perigoso. Talvez só sobrevivamos se percebermos isto rápido.

É possível haver solução com Putin no poder?

TODOS: Não.

SM: Trump pensa como empresário. Putin é KGB. Vai enganá-lo. O objetivo dele é apagar a Ucrânia como identidade. Não é território — é existência.

Conseguem descrever numa palavra o sentimento de viver em guerra e ver aquele “stunt” do Donald Trump com o Zelensky na Casa Branca?

SM: Raiva. Foi mesmo raiva. Acho que foi como aquele gatilho que me fez perceber: ok, a guerra nuclear está a chegar. Esse foi o primeiro gatilho em que senti que a democracia dos EUA, em que eu acreditava quando era um jovem — e parte da minha família vive nos EUA, tenho ligações profundas com os EUA — parecia completamente quebrada. Foi realmente a sensação de que eu não sabia o que dizer sobre o país tal como foi construído. Durante 300 anos impediram que isto acontecesse e de alguma forma é tão fácil destruir tudo e ninguém realmente se levanta contra isso nos EUA. 

YS: A coisa engraçada é que, sendo verdadeira, a nossa sociedade — claro, numa situação de guerra, estamos muito unidos com o nosso governo e uns com os outros — é algo muito especial porque nós somos… anarquistas. 

Sim, uma sociedade de ligações horizontais. Queremos o nosso direito o tempo todo. Queremos controlar o governo para sempre. É assim que um ucraniano funciona. Mas no momento em que aquilo aconteceu na Casa Branca, toda a gente estava unida como o Zelensky. Toda a gente. Nós criticamos os nossos presidentes o tempo inteiro. É de loucos. As pessoas elegem o presidente e dois meses depois começam a dizer “bla-bla-bla, ele é muito mau”. 

AG: As sondagens começam a cair no momento em que põem a mão na Constituição. Essa é a estatística na Ucrânia. Acho que é bom — é uma sociedade que quer controlar tudo.

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