Entrevista a Basil da Cunha, realizador de «Até Ver a Luz»

(Fotos: Divulgação)

É possível fazer filmes sem dinheiro, sem ensaios, sem atores profissionais e com uma conceção de cinema artesanal a guiar o processo? O realizador luso-suíço Basil da Cunha acredita que sim e, aparentemente, o Festival de Cannes também. Desde que retornou a Portugal e foi viver na Reboleira, uma bairro da Amadora, que o cineasta já produziu três curta-metragens selecionadas para o famoso festival – ao qual soma-se Até Ver a Luz, a sua primeira longa-metragem – escolhida este ano para a Quinzena dos Realizadores. Às vésperas do seu lançamento comercial o realizador conversou com o C7nema sobre a sua forma de trabalhar, a sua crença na identificação do público português com um filme falado essencialmente em crioulo e sobre novos projetos.

Queria que falasse um pouco sobre o seu background. Os seus últimos filmes foram todos feitos na Reboleira, embora tenha vivido muitos anos na Suíça…

Não filmei sempre na Reboleira, eu fiz dez curtas-metragens – antes de vir para cá – no bairro onde eu vivia, em Lausanne, que é a cidade mais multicultural da Suíça. Sempre trabalhei com amigos e familiares. Desde que o meu pai comprou uma câmara passei a fazer filmes com vizinhos e amigos. Vim para cá viver e continuei a trabalhar da mesma maneira. Escolhi a Reboleira porque as casas ali eram mais baratas. Eu não tinha intenções de fazer filmes aqui, mas comecei a fazer uns telediscos de hip hop com uns rapazes e aí tudo evoluiu muito rapidamente.

Curiosamente, o bairro aqui é até parecido com o que eu tinha lá fora – com o pessoal na rua, muito convívio, tudo aquilo que eu gosto. Em uma ou duas semanas já conhecia imensa gente. Começamos a conviver, primeiro através da música. Eu estava à espera de financiamento para fazer uma curta, que não apareceu. Então arrancamos para trabalhar da mesma maneira que fazemos até hoje e surgiu o Nuvem, produzido com cinco amigos. Éramos poucos, só tínhamos alguém para o som e eu na imagem, depois a minha equipa foi crescendo ao longo dos meus filmes. Com Os Vivos Também Choram foi diferente, já tínhamos um camera.

Como aprendeu a fazer cinema?

Aprendi fazendo, de uma maneira muito artesanal. Eu vejo o cinema como artesanato, fui fazendo que eu aprendi. E vendo filmes, claro. Fazer filmes foi o principal. O método veio a afinar-se ao longo destas 15 curtas. Segue sempre uma linha em termos de temática e método de trabalho.

Houve cineastas específicos que o influenciaram?

Gosto muito dos diálogos do Pedro Costa. A maneira como ele trabalha as cores e as paredes. Gosto do Miguel Gomes porque ele tem uma liberdade tremenda a trabalhar. É uma inspiração no sentido em que se libertou do seu próprio cinema. Mas também gosto do Die Hard! É o primeiro anti-herói americano, adoro. O tipo acorda sempre com ressaca, a fumar um cigarro, tem problemas com a mulher. Depois tem uma coisa nos buddy movies que é muito bom que são os secundários. Os meus filmes não são feitos à base de um ator transcendental que não deixa nada para o resto. Os outros também são importantes, têm uma caracterização e uma personalidade muito fortes. Para não falar de Pasolinis e Fellinis que foram os cineastas que mais me comoveram no cinema.

Como é que acha que seu filme se enquadra dentro do panorama do cinema português?

Não analiso (risos). Só estou aí para fabricar filmes, mesmo. Acho que o filme é muito português, mas é muito crioulo… e muito americano também. Mas é rodado em Portugal e fundamentalmente português, apesar de ser falado em crioulo. E os portugueses também têm que aceitar que isso faz parte da cultura deles. O pessoal vive aí, portanto são portugueses.

Pela primeira vez teve uma distribuição comercial. Qual a reação que acha que o público português, de fora do bairro, vai ter? Acha que é um filme acessível?

Tenho a certeza que sim. Para já brincamos com um vocabulário cinematográfico com o qual toda a gente já se reconhece. É um filme noir, de gangsters. Usamos muito esse vocabulário. Depois o filme dá uma volta e se torna meio documentário ou outra coisa qualquer. Isso permite apanhar muita gente. E não sei, se calhar não é muito parecido com outras coisas, mas o cinema também vive da sua diversidade. Há filmes que não são parecidos com nada do que eu já vi.

Como se dá o seu trabalho com os atores? Não trabalha com profissionais…

Para já, atores (profissionais) para o meu cinema não dá. Eu não sei trabalhar com eles nem eles da maneira como eu trabalho. É que eles estão a imitar alguma coisa enquanto eu estou a filmar a vida. Na rodagem há sempre um risco quando se filma a vida, estão sempre coisas imprevisíveis a acontecer, incluindo a reação deste ou daquele “ator”.

Mas, antes de mais, eu não venho de fora. Eu vivo lá e são amigos, são pessoas que vêm fazer isso por amizade. Todos os filmes que eu fiz foram sem financiamento. É claro que eles terão suas próprias motivações – um porque quer deixar sua marca no cinema, o outro porque não tinha nada para fazer naquele dia, outro porque acredita no projeto. É diferente para um realizador vindo de fora e fazer um trabalho no bairro. Eu estou lá a viver. Os meus amigos são eles. O que faz com que isso funcione é a fé que eu tenho em cada um dos rapazes que vou buscar.

Mas há um processo de escolha, nem toda a gente tem perfil para aparecer num filme…

Como conheço toda a gente sei quem vou buscar. No filme há, por exemplo, um personagem que está a sempre a contar a história de um gajo que morreu duas vezes. Eu já tinha ouvido falado deste “ator” e, assim, naquela hora do filme fui busca-lo. Eu também queria mostrar que aquele grupo de criminosos não é só profissionais. Em vez de andarem à procura de quem roubou-lhes o dinheiro, estão ali a “avacalhar” uns com os outros.

Eu precisava de uma confusão enorme, então pego nesse rapaz que pensa que vai contar essa história – até porque sei que ele não gosta de ser interrompido. Então ponho o tipo que mais goza no bairro à frente dele sem lhe dizer. Já criei uma cena. Depois, quando isso já não resulta, ponho outro em cima do muro a mandar amendoins em cima dele e, quando já não funciona, ele manda pedras. A reação dele é verdadeira, não é encenada. Nunca há ensaios, nem com o ator principal.
Neste caso eu acreditei nele, apenas isso. Não acredito nos ensaios, tem de ser a filmar na hora. Não estamos a aplicar um guião. Existe um, assim como diálogos mais elaborados, mas ninguém os lê. Há diálogos mais elaborados… sim, mas ninguém os lê. Dou ao camera as instruções para ele perceber mais ou menos o que eu quero. No final os diálogos ficam 60% muito próximos daquilo que eu pretendia e o restante é improvisação – como a cena da entrega da lamparina, que é completamente improvisada e, para mim, é um dos momentos mais fortes. Tudo evolui na hora, com a rodagem.

Quando é que decidiu que era hora de avançar para uma longa-metragem?

Eu já estou a fazer uma longa desde o Nuvem. O formato das curtas não chegava para aquilo que eu queria contar, mas se passas dos 30 minutos já não entras em festivais. Foram mais dias de trabalho, de montagem, de rodagem, mais dias a escrever. E o mesmo esquema de sempre, eu, o camera e o som, mais o pessoal do bairro.

É claro que eu pretendo ser financiado. Precisamos de apoio para viver porque eu gosto do meu trabalho. Gosto de manter a minha liberdade. Mas temos de fazer primeiro para verem o nosso trabalho. Se ficarmos à espera ninguém te dá nada. Tive três curtas em Cannes, mais a longa. Já são obrigados a olhar para nós. Não tenho muitos amigos dentro do cinema, portanto só posso falar com o meu trabalho. Fiz quase tudo sem financiamento mas agora gostava de ter. Porque merecemos isso, trabalhamos no duro e os meus rapazes merecem ser pagos por isso.

Já tem novos projetos?

Estou já a escrever a minha próxima longa. Já recebi um apoio para escrita. Será um road movie no norte de Portugal.

Então vai sair do bairro…

Sim, vamos sair um bocadinho. É a história de quatro rapazes que vão fazer um assalto para pagar uma dívida a um gangue, mas a coisa corre mal e um deles morre. Por enquanto, chama-se Os Últimos Heróis – embora o nome não vá ser esse. Entretanto vou fazer uma curta porque só vou poder rodar para o ano e como ficar parado não dá, vou fazer uma curta só com raparigas, nunca fiz. Será com quatro bandidas! (risos).

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