Há uma extraordinária ambiguidade e sensibilidade neste “Proxima” filme da gaulesa Alice Winocour, a qual, mais uma vez, como em “Agustine” e “Mustang” (que escreveu), olha para o universo feminino com dedicação e complexidade, lutando contra os chavões de género, mas caindo na sua própria armadilha quando olha/cria uma figura masculina num trio parental de forma distante e bastante superficial. E tal como em “Maryland (2015)“, a argumentista e realizadora embarca no estudo entre o trabalho e como este afeta a vida pessoal, mas não é impeditivo para ele. Mas vamos por partes.
Ao seguir Sarah (Eva Green não brilha mas mostra-se em bom plano), uma astronauta que se prepara intensamente para uma missão espacial, mas que mantém uma relação de grande proximidade e dependência com a sua pequena filha, Stella (a luminosa Zélie Boulant-Lemesle), Winocour segue os passos de qualquer mulher que queira gerir uma carreira em ascensão e pretenda manter alguma estabilidade na sua vida familiar, em particular no que concerne à sua relação com a filha, um elemento que tanto a desestabiliza como serve de impulso pessoal e social para prosseguir numa carreira a que muito poucos homens, e ainda menos mulheres,têm acesso.Esta personagem de Sarah é acompanhada com afeto, mas também sentido crítico, pela lente da cineasta durante os intensos treinos físicos e psicológicos para uma missão espacial, na qual fazem também parte o americano Mike Shannon (Matt Dillon) e o russo Anton Ochievski (Aleksey Fateev). O filme aborda essencialmente a maternidade nas suas alegrias e dificuldades, estando ainda em evidência o teor de perigo da profissão, que levará Sarah fora deste planeta e com possibilidades de nunca mais voltar. “Vais morrer primeiro que eu?” pergunta a jovem Stella desarmada pela distância forçada a que é obrigada pelo treino específico e missão da mãe, que a certo ponto entra num regime de quarentena sem poder contactar diretamente a filha.
É aqui que o filme entra em aparentes solavancos, pois ao colocar a jovem aos cuidados do pai enquanto a mãe treina, não aprofunda neste qualquer capacidade ou incapacidade de servir a filha no seu dia a dia, mostrando-o como uma figura de cartão periférica – tal e qual como quase todas as mulheres dos astronautas foram apresentadas ao longo da história do cinema. Na verdade, essa proximidade entre pai e filha nunca irá servir para Stella, acentuando a sua maior dependência em relação à mãe. Nisto, Winocour parece tentar dizer que para as mulheres é preciso o dobro do esforço para equilibrar carreira e a vida familiar, mas segue o caminho mais fácil, o da displicência à moda antiga.
É uma escolha pessoal da realizadora que soa a um artifício facilitista, transformando a sua mensagem e vários momentos que seguem na relação entre mãe e filha na rota de uma grande improbabilidade, especialmente quando a nossa astronauta falha vários protocolos do seu treino para atender às necessidades emocionais da jovem sem qualquer consequência profissional.
Por tal, “Proxima” é um filme bem conseguido, tecnicamente irrepreensível e com belas interpretações, especialmente no que concerne à desenvoltura e desconstrução das personagens, mas são evidentes falhas no argumento e na história que enfraquecem a narrativa e o “mais que tudo” que a cineasta quer transmitir sobre maternidade e carreira.

















