Inadelso Cossa e como “As Noites Ainda Cheiram a Pólvora”

(Fotos: Divulgação)

É com com as memórias da Guerra Civil Moçambicana (1977-1992) como pano de fundo que Inadelso Cossa viaja até a aldeia da avó para revisitar as histórias que opuseram a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO). 

Num exercício de preservação da memória histórica do país, mas também pessoal em relação à avó, que começa a dar sinais de perda das nefastas lembranças do passado, Inadelso – fugindo do formato típico que varia entre imagens de arquivo e entrevistas – faz um trabalho refrescante entre o documentário e a ficção, o qual, acima de tudo, põe em cima da mesa a discussão de um tabu nacional. 

Quando falamos com ele em Berlim no início do ano, Inadelso ainda não tinha a certeza se o filme alguma vez iria estrear em Portugal, algo que vai acontecer esta semana, no Doclisboa, inserido na competição nacional já que o filme conta com participação portuguesa (e alemã, norueguesa, holandesa e francesa) na produção. “Mas o filme não foi financiado por Moçambique”, explicou-nos Inadelso, lamentando a posição do governo do seu país no que diz respeito ao financiamento da cultura e, particularmente, no apoio aos cineastas mais jovens. “É triste. Quando o tópico é passado, não lhes interessa. A guerra agora é outra. Talvez para chamar a atenção tenha de fazer um filme sobre a Isis (Daesh). É muito triste não poder contar com o teu país para fazer um filme sobre ele, mas isso também não pode servir de desculpa para não o fazer. A tua vontade de contar histórias e fazer filmes tem de ser maior que isso tudo”. 

Abordando “As Noites Ainda Cheiram a Pólvora”, o cineasta afirmou que queria fazer parte daquele espaço, como neto e, ao mesmo tempo, como realizador que está preocupado com a memória que ele não tem, mas que a avó tem, ainda que esteja a perdê-la: “ A única coisa que ela se lembra desses tempos é do marido, o meu avô. A ausência dele é também um buraco enorme na sua vida. A noite foi o espaço para criar essa atmosfera. A noite é o que dá sentido ao filme, não porque está no título, mas porque era o período em que as atrocidades da guerra civil aconteciam. Felizmente, fui protegido disso, mas muitas outras crianças não tiveram essa proteção. Algo importante era pensar até que ponto é que os nossos pais e o próprio país inventaram os contos de fadas que nos contavam para nos proteger da guerra. O que acontece é que nunca houve realmente uma reconciliação entre os moçambicanos depois da guerra. De certa maneira, sinto que faço parte dessa reconciliação.”

Definindo todo o projeto como uma “aventura” e “uma experiência”, Inadelso confessa que visitou algumas referências cinematográficas, mas admite que “há coisas que não se podem pedir emprestado” a outros cineastas: “Tens de reinventar. Cada história tem um requisito particular e cada filme tem um contributo. São precisos filmes que desafiem muitas normas estéticas. Vejo o cinema como um espaço experimental. A história que narro já aconteceu, já não a posso recuperar, e não podia recorrer ao modelo clássico de entrevista, arquivo, entrevista, arquivo. Tinha de criar uma forma diferente de fazer parte daquele espaço”.

Com o desejo que o seu filme tenha um efeito terapêutico e que contribuia para que o debate sobre a Guerra Civil Moçambicana seja mais aberto no seu país, Inadelso fala de um silêncio sobre a matéria, sendo frequentemente apresentadas distrações para não se lidar com o tema: “Tem tudo a ver com agenda política. Em Moçambique, tudo é controlado pelo poder. O cinema e outras artes podem ser um catalisador importante para que se possa abrir debate e surjam ideias mais independentes do poder. É preciso autocrítica. Existe uma tentativa de matar a cultura por esse motivo. Não se quer o pensamento crítico”.

Abordando o que vem a seguir a esteAs Noites Ainda Cheiram a Pólvora, o jovem moçambicano brinca: “Estou muito preocupado, pois não sei se a minha ficção não será chamada de documentário, ou se o meu documentário será chamado de ficção. Gosto muito da zona de fronteira. Não gosto de etiquetas. Certamente vou procurar novos desafios técnicos que acrescentem algo ao que quero contar, ao filme”.

O Doclisboa decorre de 17 a 27 de outubro em espaços como a Culturgest, o Cinema São Jorge, a Cinemateca Portuguesa, a Casa do Comum do Bairro Alto e o Cinema Ideal.  

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