Sylvain Chomet prepara uma nova aventura no universo de Les Triplettes de Belleville (As Bicicletas de Belleville, 2003), regressando ao mundo que o consagrou no início do século. O novo filme, ainda sem título definitivo divulgado, não é uma sequela direta, mas decorre no mesmo universo ficcional.
“Na origem, escrevi uma trilogia de curtas-metragens. A primeira foi La vieille dame et les pigeons (1996). A segunda tornou-se Les Triplettes de Belleville (2003). A terceira foi reescrita para este novo projeto”, explicou o cineasta francês ao C7nema, em Paris, à margem do Rendez-Vous da Unifrance. “É um terceiro filme com as Triplettes, mas há uma personagem central nova: o pai das Triplettes, com 100 anos. É uma história completamente barroca, mas no espírito dos outros filmes.”
Apesar de manter o estilo em 2D, Chomet confirma que irá recorrer à inteligência artificial para agilizar tarefas mecanizadas do processo de produção. “Vou usar ferramentas de inteligência artificial internamente, para que aprendam a desenhar no meu estilo”, explicou. “Para mim, que gosto de controlar tudo, é uma oportunidade. A inteligência artificial não deve substituir a artista, mas ajudar no trabalho pesado. O verdadeiro problema é que as escolas já não formam bons animadores 2D. Os grandes animadores estão a reformar-se e não houve transmissão do saber. Criou-se um vazio.” É nesse contexto que a inteligência artificial surge, não como substituto criativo, mas como resposta industrial: “A inteligência artificial não deve fazer o trabalho artístico. Deve fazer o trabalho mecânico, o trabalho chato. Em animação, 80% do trabalho é mecânico. É por isso que os jovens já não querem desenhar/animar, querem todos ser realizadores.”

Bastante crítico em relação ao financiamento público em França, Chomet não poupa nas palavras ao falar do assunto. “O problema é que o Centre national du cinéma et de l’image animée (CNC), que foi em parte pensado por Marcel Pagnol com a ideia de taxar os filmes americanos, já não recompensa quem faz coisas. Dá dinheiro aos amigos. Depois de Les Triplettes, não conseguia financiar os meus filmes em França. L’Illusionniste (2010) só foi possível porque a Pathé entrou com financiamento privado. O CNC não colocou dinheiro no filme. Se hoje fosse ao CNC com a ideia de uma curta-metragem para iniciar uma produção, não conseguiria, a menos que se conte uma história ‘certa’, sobre os temas da moda. Aí sim, há dinheiro. O cinema francês está a tornar-se um catecismo.”
Recorde-se que o mais recente filme de Chomet, A Magnífica Vida de Marcel Pagnol (2025), estreou no último Festival de Cannes e deverá chegar brevemente às salas de cinema nacionais. A animação traça um retrato do dramaturgo e cineasta francês, da infância ao sucesso nos palcos e nos estúdios, sem esquecer os anos da ocupação nazi e a necessidade de vender à Gaumont o estúdio de cinema que tinha criado em Marselha.
“A minha primeira ligação a Marcel Pagnol foi quando tinha nove ou dez anos”, recordou Chomet em Cannes. “Na escola tínhamos de estudar a sua obra — La Gloire de mon Père e Le Château de ma mère. Senti que ele falava comigo. Mais tarde vi os seus filmes, mas nem fiz a ligação entre o realizador e o autor que tinha lido em criança. Ele só começou a escrever livros aos 61 anos. Antes disso, tinha apenas encenado peças e realizado filmes.”

