“Romaria”, de Carla Simón, abre Porto/Post/Doc 2025. Filme de Jim Jarmusch encerra o festival

(Fotos: Divulgação)

O Porto/Post/Doc 2025 (20-29 novembro) vai arrancar com a estreia portuguesa de Romaria, de Carla Simón, que depois de Verão 1993 e Alcarràs completa a sua trilogia entre a memória e a autobiografia. No filme, a catalã regressa aos seus temas mais íntimos — perda, identidade e ausência parental — num retrato delicado do que permanece por dizer. Sempre com um olhar de génese documental, com imagens gravadas em câmaras de vídeo da época que retrata, e mirando a paisagem galega com tanto de antropológico como de sociológico, Simón embarca numa história de busca de identidade na forma de uma jovem de 18 anos, Marina (Llúcia Garcia a irradiar o ecrã), que parte para se encontrar com a família biológica.

Depois da ditadura, Espanha viveu uma explosão de liberdade, a ‘Movida’, a democracia, a cultura. Mas a heroína entrou de forma devastadora, sobretudo pela Galiza, e muitos morreram de SIDA. Como era tabu, as famílias deixaram de falar disso. Esse silêncio ainda pesa. Por isso é importante recuperar essas histórias, porque foi uma geração que desafiou valores antigos e abriu caminhos para novas formas de pensar”, disse a cineasta ao C7nema em Cannes, onde o filme teve a sua estreia mundial. “Os meus pais eram jovens nos anos 70 e 80: o meu pai em Vigo, uma cidade com muita música e a ‘Movida’; a minha mãe em Barcelona, também num ambiente de mudança cultural. Mas cresci numa aldeia, num contexto diferente. A geração deles foi marcada por várias maneiras de viver a juventude — rebeldia, música, drogas, novas ideias —, mas dentro da mesma família podiam coexistir valores completamente distintos. Essa diversidade interessava-me muito.

Romeria

Já o encerramento do festival ficará a cargo de Jim Jarmusch, que apresenta Pai, Mãe, Irmã, Irmão, filme que explora as relações complexas entre adultos e os seus progenitores, com três segmentos ambientados em países diferentes (EUA, Irlanda, França).

Reconhecendo que as cidades são essenciais para si e para o seu cinema — cada uma com um carácter distinto que o leva a apaixonar-se por elas —, Jarmusch explicou em Veneza as escolhas para o seu filme, que conquistaria o Leão de Ouro: “Nova Jérsia foi escolhida por uma questão sindical: tinha de filmar a menos de 30 milhas de Nova Iorque, caso contrário o orçamento explodia. Encontrámos um local a 29,5 milhas. Já Dublin escolhi porque a personagem da Charlotte Rampling é escritora, e a Irlanda celebra os escritores. Não pagam impostos, são acarinhados. Adoro a Irlanda e tive uma equipa fantástica lá. Quanto a Paris, é como uma segunda casa para mim. Estou até a tratar do meu visto de artista francês para poder filmar novamente em França. E também queria que os jovens americanos do filme tivessem Paris como uma referência importante.”

Entre a abertura e o fecho, o Porto/Post/Doc 2025 anunciou ainda os títulos da sua Competição Cinema Falado, dedicada exclusivamente ao cinema em língua portuguesa. A seleção reúne curtas e longas de realizadores de Portugal, Brasil, Moçambique e outros países lusófonos. 

Títulos como A Última Colheita, de Nuno Boaventura Miranda, Cartografia das Ondas, de Heloisa Machado Nascimento, O Manuseio, de André Guiomar, ou Um Filme de Terror, de Sergio Oksman, integram a programação. Aqui fica a lista completa dos filmes anunciados para esta secção:

A Última Colheita – Nuno Boaventura Miranda (2024) – Cabo Verde, Portugal
Cartografia das Ondas – Heloisa Machado Nascimento (2025) – Brasil
Claridade – Mariana Santana (2025) – Portugal
Deuses de Pedra – Iván Castiñeiras (2025) – Espanha, França, Portugal
Infinito Infinito, Na Imaginação da Matéria – Mariana Caló, Francisco Queimadela (2025) – Portugal
Ku Handza – André Guiomar (2025) – Portugal, Moçambique
Maria Henriqueta Esteve Aqui – Nuno Pimentel (2025) – Portugal
Samba Infinito – Leonardo Martinelli (2025) – Brasil, França
Sechiisland: A Vida como Obra de Arte – Cláudia Do Canto, João Paulo Miranda Maria (2025) – Brasil
Um Filme de Terror – Sergio Oksman (2025) – Espanha, Portugal
Zizi (ou oração da jaca fabulosa) – Felipe M. Bragança (2025) – Brasil

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