O regresso às salas com Alice Guy-Blaché

(Fotos: Divulgação)

É Frances McDormand (em “Nomadland”) e Hong Sang-soo (e o quarteto de filmes que a Midas lançou no mercado) que nos recebem à entrada do Cinema Ideal, em Lisboa, espaço que reabriu (finalmente) as portas, embora ainda com os condicionamentos e cuidados que a pandemia apresenta (limitações de público, uso obrigatório de máscara, etc).

A sessão escolhida pelo C7nema para esta rentrée foi Be Natural – A História Nunca contada de Alice Guy-Blaché”, filme que vai apenas estrear em maio, mas que teve direito a uma antestreia gratuita pelas 9:30 no Ideal.

Realizado por Pamela B. Green, com produção e narração de Jodie Foster, Be Natural (frase que Alice tinha no seu estúdio para incitar a que as atuações fossem naturais) propõe um novo olhar sobre aquela que foi uma das pioneiras da História do Cinema, Alice Guy-Blaché, um nome “esquecido” e muitas vezes mal registado pelos historiadores. Paralelamente, este é também um documentário sobre o processo de investigação, um trabalho de detetive na recolha, pelos mais variados locais, de material, muito dele desconhecido, sobre a filha ilegítima de Emile Guy e de Marie Clotilde Franceline Aubert, que se tornaria estenógrafa e datilógrafa da Gaumont antes de transitar para trás das câmaras em 1896. Depois de França, Alice viajou e fez carreira nos EUA até que a falência da sua empresa, a Solax, levou-a de volta para a Europa, seguindo a filha, Simone, também ela ligado ao cinema já que trabaçhava para empresas como a Fox.

Responsável por mais de 1000 filmes (a maioria curtas-metragens, mas também 22 longas), Alice realizou o seu último filme em 1920, quase morrendo durante a produção devido à gripe. Em 1922, divorciou-se de Herbert Blaché, perdendo o estúdio devido à sua falência. Após essa perda, regressou a França e nunca mais realizou e produziu, e mesmo quando tentou retomar o trabalho nos Estados Unidos, em 1927, fracassou. As dificuldades porque passou atingiram também a publicação das suas memórias, pois já na década de 1960 – e com elas escritas – encontrou dificuldades em encontrar uma editora para as publicar.

São dezenas e dezenas os contributos de cineastas (Patty Jenkins, Anne Fontaine, Peter Bogdanovich, etc), atores (Geena Davis, Janeane Garofalo, Ben Kingsley, etc) e académicos contemporâneos neste documentário, para além da recolha escrita, em audio e vídeo de entrevistas com a pioneira e a sua filha. 

O que havia de imensamente especial nela está relacionado com o seu envolvimento na criação de de uma gramática cinematográfica que hoje reconhecemos (…)”, disse Pamela B. Green sobre o seu filme, que certamente serve de molde para a ficção que a própria está a preparar sobre a realizadora que esteve no centro de inovações estéticas e avanços técnicos que contribuíram, para que o cinema se tivesse tornado numa forma de arte absolutamente preponderante no decorrer do século XX.

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