As soirées Arrested Cinema são um espaço do festival Cinéma du Réel dedicado aqueles documentaristas que vivem em zonas do globo em que o seu trabalho não só não é respeitado, como não é aceite. A temática da sessão deste ano foi o conflito que ainda hoje decorre na Síria e – apesar do programa falar de quatro curtas-metragens – foram passadas duas curtas e uma longa. Os nomes dos realizadores não foram revelados, por medo de represálias, tal como não o foi o título da longa (ou pelo menos eu não o apanhei). Apesar de tudo, vou tentar falar do que vi.
{xtypo_rounded2} «Hama 82» e «Taarik Al Kawafel»
Estas duas curtas-metragens têm o mesmo estilo de filmagem e edição, aparentando ser do mesmo realizador. Ambas pegam em incidentes do passado (nomeadamente o Massacre de Hama, em 1982, que eu desconhecia totalmente) e estabelecem paralelos com o que se está a passar atualmente através de imagens de arquivo e entrevistas.
Num tipo de filmes como este a análise à sua forma é o menos importante. O que me impressionou nestas curtas foi a concretização do velho adágio que diz que quem esquece a história está condenado a repeti-la: o massacre de Hama foi ordenado pelo Hassad pai, o mundo esqueceu-o e agora o Hassad filho está a tratar de fazer algo semelhante em Homs. Os sírios começaram por manifestar-se pacificamente (veem-se imensas crianças!) contra o regime que os oprime, como o fizeram muitos tunisinos ou egípcios. A diferença é que não contam com o apoio do resto do mundo (graças à Rússia e à China) e continuam a sofrer os brutais ataques do exército que supostamente existe para os proteger.{/xtypo_rounded2}
{xtypo_rounded2} Longa-metragem sem título, de Oussama Mouhammed
O que era para ser um projecto a quatro mãos financiado pela academia dinamarquesa de cinema sobre o feminismo na Síria acabou por se tornar um documento de um só cineasta sobre a repressão iniciada em 2011 pelo regime de Bashar Al Hassad. Pena é que pouco ou nada seja dito sobre a mesma nesta longa que, infelizmente, tomou o lugar a duas outras curtas nesta sessão.
O realizador Oussam Mouhammed chegou a Paris há muitos poucos dias, fugido da violência da Síria e só esse facto garantiu-lhe muita simpatia da plateia antes do seu filme começar. Infelizmente, a obra que apresentou – que, confessamente, é ainda um work in progress – é muito fraca e quase um insulto aos restantes realizadores que se debruçaram, decerto melhor, sobre o tema em questão e se viram excluídos da sessão. Desta longa pude retirar que o realizador e os seus amigos gostam muito de si próprios, se acham muito importantes e artísticos, não sabendo quando parar de filmar ou – pelo menos – editar o filme.
O que poderia ter sido um testemunho interessante de como o tema de um filme pode mudar totalmente devido a factores externos acaba por ser um triste espetáculo ao qual daria o título de “Como olhar para o meu próprio umbigo enquanto o meu país está a ser desfeito pelo seu líder”. Uma oportunidade tristemente perdida, que levou muita gente a abandonar a sala em vez de debater um tema tão importante como este.{/xtypo_rounded2}
João Moreira
(responsável pelo blog subjective.movie.reviews)

