Uma das parcerias mais sólidas e intensas do cinema francês está de regresso. Vincent Lindon confirmou, durante o Festival de Cinema de Turim (21 e 29 de novembro), que acaba de rodar um novo filme com Stéphane Brizé — o sexto da dupla — descrevendo a relação entre ambos como “uma equipa, como um casal”, marcada por confiança absoluta: “Ele confia em mim cegamente e eu confio nele.”
Já filmado e atualmente em pós-produção, o projeto conta também com a italiana Alba Rohrwacher, com quem trabalhou em A Vida entre Nós, e deverá ficar pronto “dentro de dois ou três meses”, segundo Lindon — deixando implícito que poderá chegar a tempo do Festival de Berlim e certamente de Cannes.

O liberalismo como foco — agora com ironia e cinismo
Aquando da estreia em Portugal de A Vida entre Nós, Stéphane Brizé confirmara ao C7nema que este novo trabalho prolonga a sua investigação do mundo laboral, mas desta vez com um tom diferente. “É um filme que se passa numa empresa”, explicou. “Procura entender como, sem dar uma ordem direta, conseguimos obrigar alguém a fazer algo. Isto vai até ao coração do liberalismo, que é um sistema altamente brutal, quer para quem dá as ordens, quer para quem as recebe.”
Depois de A Lei do Mercado, Em Guerra e Um Outro Mundo — filmes que descreve como “construídos com uma ideia de raiva” —, este novo capítulo aposta num olhar mais ácido: “Apesar de ainda ter essa raiva em mim, além da melancolia, existe agora uma abordagem mais irónica à indecência. Os filmes anteriores eram muito diretos; este é mais cáustico e tem mais cinismo.”
Brizé identifica o alvo central: “Em vez da competitividade, o lucro é o foco. E o lucro nunca vai ter em conta o lado humano.” Para ele, o sistema cria uma armadilha que se retroalimenta: “O liberalismo cria ferramentas para manter o sistema sem fim, sem responsabilidades enquanto sistema. Ferramentas que nunca põem em causa a matriz, mas sim os indivíduos — a sua culpa individual num eventual fracasso.”
Essa culpabilização é o motor do filme: “Se não triunfas na tua empresa, a culpa é tua. A culpabilização dos trabalhadores por não serem felizes nas empresas. É indecente. Este mundo é indecente e participamos nele, quer queiramos ou não.”



Lindon reencontra o território onde mais se exalta
Em Turim, Lindon disse que os filmes com Brizé o tocam de forma particular. Rever Em Guerra, projetado no festival, deixou-o “muito triste”: “Se este filme saísse hoje, infelizmente teria sucesso.” A precariedade e a injustiça laboral não só persistem — aprofundaram-se, acredita o ator.
A cumplicidade entre ambos permitiu-lhe atravessar momentos difíceis das filmagens: “Passei momentos difíceis no filme de Stéphane — tive muito medo de certas cenas — e durante sete meses ele apoiou-me sempre.”
Um novo capítulo de uma dupla que se tornou inabalável
Para Lindon, a colaboração com o cineasta é quase um destino artístico: “A conversa retoma sempre no ponto onde tinha parado. Mesmo quando não nos vemos durante um ano, reencontramo-nos exatamente no ponto onde tínhamos ficado.”
E promete continuidade: “Daqui a um ano voltarei a filmar outro projeto com ele.”

“A minha liberdade tem um custo, mas não tem preço”
Em Turim, Lindon falou como quem, com a sua idade e experiência, já não tem paciência para diplomacias. “Não me tornarei um mentiroso à minha idade”, disse logo no início, explicando o seu amor imediato por Itália, onde “basta pôr o pé no solo italiano para ficar bem-disposto”, graças a essa mistura difícil de definir de “desenvoltura, alegria e leveza apesar do mundo em que vivemos”.
A conversa rapidamente saiu do protocolo e entrou naquilo que o move: liberdade, ética e trabalho. “O meu pai dizia sempre: a minha liberdade tem um custo, mas não tem preço”, recordou, sublinhando que só faz filmes que deseja fazer. “Sou extremamente livre. Faço os filmes que quero, quando quero.”
Essa liberdade, garante, tem uma função: servir os outros. “O meu modo de contribuir à vida civil e social é fazer cinema”, afirmou. “Se posso deslocar um pouquinho alguma coisa numa pessoa, então digo que a minha vida não terá sido completamente errada.”
A cultura como último reduto
Lindon mostra-se inquieto com o estado da cultura e com a forma como os governos a tratam. “Reduzir o orçamento para a cultura não é reduzir o orçamento da cultura, mas o cérebro humano”, sentenciou. Para ele, o que recordamos dos povos não são políticas, mas legados: “Lembramo-nos do que resta: a arte, a cultura, a civilização.”
Esta leitura estende-se ao cinema contemporâneo: “Quando há bons filmes, todos ao mesmo tempo, as pessoas vão ao cinema. Quando os filmes são medianos, o cinema não vai bem.” A equação, para ele, é simples e antiga: “A única coisa que conta no cinema é uma boa história, uma boa história e, no fim, uma boa história (…) “Uma história que não tem paixão e não tem interesse, podes gastar biliões para a filmar, com drones ou o que quiseres, mas fará sempre lixo.”
Pequenos gestos como política prática
Apesar do seu olhar sombrio sobre o mundo — “somos cada vez mais pessoas com cada vez menos para comer e menos água” —, Lindon insiste que ainda existe o poder individual: “Acordar todas as manhãs e dizer: o que posso fazer hoje por alguém?”. “Um sorriso a mais… deixar o lugar no autocarro… isso pode mudar o mundo.”

