Apesar de se afastar das questões sociais e laborais que caracterizaram os seus filmes anteriores, como “A Lei do Mercado“, “Em Guerra” e “Um Outro Mundo”, existe algo que conecta esses filmes e “A Vida de Uma Mulher” ao mais recente projeto de Stéphane Brizé, “A Vida entre Nós”, exibido na Festa do Cinema Francês e com data de lançamento comercial a 14 de novembro.
É na “desilusão” que encontramos a conexão, mas que agora ganha contornos diferentes e reparadores, como explicou Stéphane Brizé, em entrevista ao C7nema: “Nos meus quatro filmes anteriores, onde falta mencionar o “A Vida de Uma Mulher”, as personagens acreditavam todas em algo grande no espírito humano e desiludiram-se. Uns acreditavam na família, outros nos sindicatos, outros nas empresas. Todas essas personagens vivem uma enorme desilusão. Havia algo de belo em que acreditavam e que se desvaneceu. Falhou. No caso do “A Vida entre Nós” (Hors Saison), temos pessoas que abdicaram de algo e que vão agora reparar isso. Este filme é fortemente reparador e ambos mostram uma grande coragem em confrontar o passado e o presente.”

Definindo “A Vida entre Nós” como um filme profundamente melancólico (tal como ele, que se assume como “melancólico por natureza”), Brizé escolheu desta vez Guillaume Canet (e não Vincent Lindon) para dar vida ao protagonista, Matthieu, um ator de cinema em profunda crise existencial que, numa visita a uma estância litoral, reencontra Alice (Alba Rohrwacher), uma mulher com quem esteve envolvido há 15 anos. Desde então, o tempo passou, cada um seguiu o seu caminho e as feridas cicatrizaram gradualmente, mas muitos sentimentos reprimidos são despertados nesse reencontro, que terá o seu quê de redentor.
“Envolvidos nessa melancolia, as duas personagens encontram uma resolução que os melhora. E não é um que faz bem ao outro, mas cada um deles a si mesmo”, explicou Brizé, que escolheu criteriosamente as locações como reflexo do estado de espírito das suas personagens: “O Hotel representa a psique da personagem do Guillaume. Luxuoso, mas factício. Ele vê a sua vida assim. Confortável, mas fria”.
Movido pelos diferentes estados de espírito que lhe assolam a alma quando assina um filme, os quais têm sempre o seu quê de autobiográfico, ainda que o cineasta utilize personagens fictícias para canalizar os seus pensamentos, Brizé disse ainda que, quando fez “A Lei do Mercado“, “Em Guerra” e “Um Outro Mundo” estava com “raiva”, mas que, para este novo projeto, esse sentimento já não foi o principal motor emocional. “Escolhi atores para manifestar os meus sentimentos, não para me distanciar das coisas mas porque sinto que há algo de poético no trabalho de um ator. Quando faço um filme, deixo-me consumir por sensações, mas existe sempre um pensamento do irrisório. Escolhi atores porque creio que eles são quem melhor representa a condição humana. Para mim, o ator tem algo de heroico. Ele vai partilhar qualquer coisa de nosso, da história comum da nossa alma e da vida. As tristezas, as alegrias, as dúvidas. É ele que se põe à frente do público para contar as nossas próprias histórias. E ao chegar sem um instrumento qualquer nas mãos para fazer isso (uma guitarra, um piano, etc), ele faz algo de heroico. Na verdade, qualquer homem e mulher que atravessa a vida tem algo de heroico. Mesmo que individualmente a nossa vida seja vista como irrisória. Um ator mostra a fragilidade da nossa humanidade. E a personagem que vemos em cena, questiona a sua existência e o lugar da vida onde está. Não é uma questão de dinheiro ou sucesso, mas do sentido da própria vida”.

A frase que movimenta Brizé
Por vezes, nas entrevistas, somos confrontados com frases ou detalhes sobre a vida do entrevistado que literalmente nos forçam a ir para outros campos. Por isso, quando Brizé começou a falar de como uma frase dita pela mãe quando era pequeno moldou toda a sua vida e influenciou os questionamentos que hoje em dia faz no seu cinema, a única frase clichê que saiu, juntamente com um enorme silêncio, foi: ‘O que pensa em relação a isso?’.
“Sempre que aparecia alguém na televisão, a minha mãe dizia que aquela vida não era para nós”, disse-nos o cineasta. “Desde pequeno que me interroguei sobre isso, pois quem aparecia no pequeno ecrã era visto como superior, fosse na riqueza, no conhecimento, ou na vida. Tudo neles era mais. Foi a partir daí que comecei a pensar qual era o meu lugar no mundo. O que é que faz sentido na minha existência, seja trabalhando como jornalista, cineasta ou dono de um restaurante? Se reparar, as personagens que crio são constantemente confrontadas com essa questão. Seja nos filmes do passado, seja num que ainda estou a escrever, essa questão é tratada de forma diferente, mas é comum a todos”.

Guillaume Canet
Ao contrário dos seus filmes anteriores, Brizé não escolheu Vincent Lindon como protagonista do seu filme. A escolha recaiu em Guillaume Canet que, perante a decisão do realizador, chegou a telefonar a Lindon para evitar qualquer mal-entendido. “Trocamos alguns SMS, mas não posso dizer que o conhecia pessoalmente”, explica Brizé sobre como chegou a Guillaume Canet para o protagonismo. “Sempre o vi em filmes mais populares, e tinha uma grande curiosidade nele. O que é que ele me conta como indivíduo? Sem nunca o conhecer pessoalmente, ele sempre me transmitiu uma sensação de que tudo o que mostrava era uma dissimulação. Que aquela alegria que transmitia escondia uma espécie de tristeza. Ele estava para lá da melancolia, era alguém triste. Todos os filmes que faço vejo neles documentários sobre os atores. Todos os filmes que fiz com o Vincent Lindon são documentários sobre ele. Todos com a Sandrine Kiberlain, são documentários sobre ela. Quando fiz o “Une Vie”, era um documentário sobre a Judith Chemla. Não acredito no ator que vai mostrar algo que não existe nele, pois por trás desses atores estão pessoas. Com o Guillaume queria filmar a sua fragilidade sob a aparência de uma força social. Ele é mais belo, fisicamente, que a média. Tem nele um charme incontestável. Mas é muito mais que isso. É bem mais sombrio que o que mostra e pretendia filmar isso. E, ao contrário de outros, ele tem um olhar de humor sobre a sua condição de estrela, de vedeta”.
Novo projeto
“É um filme que se passa numa empresa. A única coisa que posso dizer é que, apesar de questionar certas coisas como em “A Lei do Mercado“, “Em Guerra” e “Um Outro Mundo”, é um filme que procura entender como sem dar uma ordem direta conseguimos obrigar alguém a fazer algo. Isto vai até ao coração do liberalismo, que é um sistema altamente brutal, quer para quem dá as ordens, quer para quem as recebe. “A Lei do Mercado“, “Em Guerra” e “Um Outro Mundo” foram construídos com uma ideia de “raiva”, mas à medida que cresci e, apesar de ainda ter em mim essa “raiva” além da melancolia, existe agora uma abordagem mais irónica à indecência. Os filmes anteriores eram muito diretos, este é mais cáustico e tem mais cinismo. Em vez da competitividade, o lucro é o foco. E o lucro nunca vai ter em conta o lado humano. Existe uma ilusão no liberalismo. Este cria ferramentas para manter o seu sistema sem fim, sem responsabilidades enquanto sistema. Ferramentas essas que nunca põem em causa o sistema, a matriz, mas sim os indivíduos em si e a sua culpa individual de um eventual fracasso. Muita gente pode pensar que o que digo é extremamente ideológico, de extrema esquerda, mas para mim é algo orgânico. O Liberalismo carrega nele um discurso de vitoriosos. O Macron carrega nele esse discurso. ‘Nós queremos, nós podemos’. Se não conseguires, a culpa é tua e não do sistema. É isso que vou mostrar no meu novo filme. Se não triunfas na tua empresa, a culpa é tua. A culpabilização dos trabalhadores de não serem felizes nas empresas. É indecente. Este mundo é indecente e participamos nele, quer queiramos ou não”.






