Embora seja protagonizado pelo uruguaio Daniel Hendler, que já trabalhou no Brasil no passado, 27 Noches, o filme inaugural da 73.ª edição do Festival de San Sebastián, vem da Argentina e abre o evento, assim como a competição oficial pelo seu prémio mais prestigiado, a Concha de Ouro, em sintonia com a resiliência da nação latino-americana estrangulada pelo conservadorismo de Javier Milei. No ano passado, um protesto, com direito a um vídeo do portenho Ricardo Darín, fez tremer as instalações do certame basco, que integra o G7 das maiores maratonas audiovisuais do mundo, ao lado de Roterdão, Berlim, Cannes, Locarno, Veneza e Toronto. Nos moldes destes, o evento celebra a diversidade, com reconhecimento para os conflitos que a América Latina exorciza através das narrativas audiovisuais, mas com olhos abertos para todos os continentes do mundo. A prata da casa tem sempre protagonismo, a julgar pelas vitórias consecutivas da produção espanhola em 2023, com O Corno do Centeio, e em 2024, com Tardes de Soledad.
“O festival é o ponto de encontro mais importante do cinema espanhol do ano”, diz José Luis Rebordinos, o diretor e programador de San Sebastián, em e-mail ao C7nema. “Somos o mais pequeno dos grandes festivais, mas somos um evento de público: tivemos 172.301 espectadores em nove dias na edição passada.”
Com 27 Noches, Rebordinos assegura para si um arranque agridoce. No filme da Netflix, Martha Hoffman (Marilú Marini), uma aristocrata excêntrica, é internada numa clínica psiquiátrica pelas suas filhas. Caberá a um perito, Casares (papel de Hendler), investigar se a internação é um esquema para controlar a fortuna da mãe ou se Martha sofre, de facto, de uma forma de demência que coloca em risco o seu bem-estar e o da família.
De um modo geral, numa perspetiva histórica, a programação do festival é guiada por narrativas abertas a angústias sentimentais. Localizada no norte de Espanha, numa área estimada em 61 km², banhada pelas águas do Golfo da Biscaia, a cidade de San Sebastián, fundada em 1180, inaugurou em 1953 um dos festivais de maior prestígio do mundo, capaz de atrair cineastas do mais alto calibre criativo. O evento completou sete décadas conseguindo renovar-se, sintonizando-se com as questões mais urgentes da atualidade. Não por acaso, a sua 73.ª edição está recheada de enredos sobre sexismo, racismo, direito ao aborto, gentrificação, dignidade no fim da vida… e perdão. A sua programação insere-se num contexto histórico de respeito, uma vez que o festival ganhou fama pela sua habilidade em revelar correntes estéticas. Desde a década de 1950, a sua seleção consagra expressões autorais com a láurea chamada Concha de Ouro, batizada em referência ao símbolo da região. A geografia da cidade, vista do alto, tem a forma da concha que projeta os moluscos.

Esse prémio já coroou muitos nomes maiores da realização, como o italiano Dino Risi, os franceses Éric Rohmer e Claude Chabrol, a venezuelana Mariana Rondón, o mexicano Arturo Ripstein, o poderoso padrinho norte-americano Francis Ford Coppola, o sino-americano de Hong Kong Wayne Wang, o escocês Peter Mullan, a georgiana Dea Kulumbegashvili e o boliviano Jorge Sanjinés. Até Marlon Brando foi distinguido aqui, na sua única experiência como realizador, o western One-Eyed Jacks, de 1961 (conhecido em português como A Face Oculta).
Só uma vez, nesse longo percurso, a Concha de Ouro ficou com um título falado em português: em 2019, quando venceu Pacificado, thriller rodado no Rio de Janeiro pelo norte-americano Paxton Winters, com produção de Darren Aronofsky. A distinção, desta vez, ficará com quem melhor conquistar o júri presidido pelo realizador espanhol de blockbusters J. A. Bayona. A equipa que avaliará as longas-metragens em competição, sob o seu comando, inclui Laura Carreira, cineasta portuguesa radicada em Edimburgo, Escócia; Gia Coppola, realizadora e argumentista norte-americana; Zhou Dongyu, atriz chinesa; Lali Espósito, cantora, atriz, dançarina e modelo argentina; Mark Strong, ator britânico; e Anne-Dominique Toussaint, produtora de cinema belga, fundadora da Les Films des Tournelles.
Este ano, a atriz Jennifer Lawrence e a produtora Esther García recebem o troféu Donostia. Esse é o nome de San Sebastián em basco, um dos idiomas falados na região, incluindo a sua derivação mais antiga, o Euskara (ou Euskera), considerada a língua mais antiga da Europa. Nesse ambiente costeiro, famoso pelos pintxos (iguarias que combinam fatias de pão com mariscos, pimentos, crustáceos, queijos e presunto), Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, receberá o Grand Prix FIPRESCI da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, esta sexta-feira.
No dia 27, San Sebastián encerra as suas atividades com o anúncio das decisões do júri de Bayona e a projeção do suspense anglo-polaco Winter of the Crow, de Kasia Adamik, com Leslie Manville.
Concorrentes à Concha de Ouro de San Sebastián 2025
27 Noches, de Daniel Hendler (Argentina)
Ballad of a Small Player, de Edward Berger (Reino Unido)
Belén, de Dolores Fonzi (Argentina)
Couture, de Alice Winocour (França)
Las Corrientes, de Milagros Mumenthaler (Suíça/ Argentina)
A Cerca (Le Cri des Gardes), de Claire Denis (França)
Dois Pianos (Deux Pianos), de Arnaud Desplechin (França)
Franz Antes de Kafka (Franz), de Agnieszka Holland (República Tcheca)
Historias Del Buen Valle, de José Luis Guerin (Espanha)
Her Heart Beats in Its Cage, de Xiaoyu Qin (China)
Maspalomas, de Jose Mari Goenaga e Aitor Arregi (Espanha)
Nuremberg, de James Vanderbilt (EUA)
SAI: Disaster, de Kentaro Hirase e Yutaro Seki (Japão)
Six Jours Ce Printemps-là, de Joachim Lafosse (Bélgica)
Los Domingos, de Alauda Ruiz de Azúa (Espanha)
Los Tigres, de Alberto Rodríguez (Espanha)
Ungrateful Beings, de Olmo Omerzu (República Tcheca)

