‘A Festa de Léo’ celebra a periferia carioca

(Fotos: Divulgação)

A mais famosa imersão do cinema de ficção sul-americano nas favelas e conjuntos habitacionais do Rio de Janeiro, “Cidade de Deus” (2002), teve a sua génese em uma produtora de São Paulo e tem um realizador de origem paulista, Fernando Meirelles. O fascínio geográfico que os bolsões populacionais em vielas, morros e cortiços de uma cidade à beira do mar exerce sobre os demais estados brasileiros vem desde “Amei Um Bicheiro” (1953), confirmando-se em “Rio Zona Norte” (1957). Esse Brasil que sobrevive à base da solidariedade, num drible diário dos vetores armados do tráfico, apoiado em código de sororidade entre famílias de pais ausentes, volta agora a brilha no audiovisual brasileiro – de novo via SP, na Mostra Internacional de São Paulo – por meio de “A Festa de Léo”.

Esse mundo todo que está vindo nos prestigiar é o retrato de quem vive a dificuldade do dia a dia, mas se une, ajuda-se”, disse Luciana Bezerra, a realizadora, na consagradora passagem do filme pelo Festival do Rio, há duas semanas.

Ela assina a longa-metragem em parceria com Gustavo Melo, com que trabalhou ainda em “5xFavela – Agora Por Nós Mesmos”, lançado em Cannes em 2010. Duas atrizes em estado de graça encabeçam o elenco: Cíntia Rosa e Mary Sheila. As duas se articulam com um coletivo de intérpretes vindos do morro do Vidigal. Repleto de rudimentos da História do Cinema, o filme é uma mistura de “Rio 40 Graus” com “Ladrões de Bicicletas”. A fotografia de Renato Falcão (de “Festa de Margarette”) conversa atentamente com a centelha dionisíaca de tal tradição cinéfila.

No guião de Luciana e Melo, Cíntia é a vendedora de barraca de praia que passa por toda a sorte de percalços para garantir ao filho um aniversário digno na celebração dos 12 anos. Mas o pai viciado do garoto, Dudu (vivido por Jonathan Haagensen), vai dar trabalho para ela, com os seus sucessivos erros. Numa realização firme, os cineastas apostam numa refrescante trilha de aventura para dar um equilíbrio pop a um (melo)drama social realista. Parceiro de Luciana no curta “Acende a Luz“, Márcio Vito rouba para si cada sequência na qual aparece no papel do chefe da personagem de Cíntia.

Cada personagem desenha uma peça num puzzle sobre as irregularidades sociais que cercam um núcleo empobrecido que é uma espécie de estado de exceção numa metrópole onde o crime tem múltiplas formas. A forma mais perigosa é a da lei, que faz da corrupção uma prática discursiva.

Não é um bang-bang, um filme de confronto, é a história de como as pessoas resistem e se mantêm alegres”, disse Melo, à época da produção do guião.

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