Durante a habitual entrada no tapete vermelho do filme “La Passion de Dodin Bouffant”, de Tran Anh Hung, decorreu uma manifestação em apoio aos direitos territoriais dos povos indígenas do Brasil, liderada pela delegação oficial de “A Flor de Buriti”, filme em exibição na Un Certain Regard, assinado pelo português João Salaviza e a brasileira Renée Nader Messora.
Perante os fotógrafos, os realizadores e atores (Francisco Hyjno Krahô, Debora Sodré, Luzia Cruwakwyj Krahô e Henrique Ihjac Krahô) desenrolaram uma faixa com a mensagem: “Não ao Marco Temporal: O Futuro da Terras Indígenas no Brasil está sob ameaça”.
Este protesto visa especificamente um projeto de lei que limita os direitos constitucionais dos índios apenas às terras que possuíam sob a sua posse até 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição brasileira, ignorando o facto que durante a ditadura militar, os indígenas não puderam lutar pelos seus direitos. Apoiada por deputados do partido do ex-presidente Jair Bolsanaro, a lei restringiria severamente a capacidade dos povos indígenas de proteger as suas terras da exploração.
“A Flor do Buriti” foi filmado a durante quinze meses, em película 16mm, dentro da Terra Indígena Kraholândia. O filme inicia-se em 1940, onde duas crianças do povo indígena Krahô encontram na escuridão da floresta um boi perigosamente perto da sua aldeia. Era o prenúncio de um violento massacre, perpetuado pelos fazendeiros da região. Em 1969, durante a Ditadura Militar, o Estado Brasileiro incita muitos dos sobreviventes a integrarem uma unidade militar. Hoje, diante de velhas e novas ameaças, os Krahô seguem caminhando sobre a sua terra sangrada, reinventando diariamente as infinitas formas de resistência.

