Filho de pais portugueses, o francês Patrick Sobral saltou para a ribalta quando lançou, em 2004, Les Légendaires (Os Lendários), uma série de banda-desenhada que soma mais de vinte volumes publicados e ultrapassa os dez milhões de exemplares vendidos.
Construindo ao longo de duas décadas um universo de fantasia fortemente influenciado pela cultura manga e pela animação japonesa, a ação decorre no mundo fantástico de Alysia e acompanha cinco antigos heróis — Danaël, Jadina, Gryf, Shimy e Razzia — que, após derrotarem o feiticeiro Darkhell, provocam involuntariamente uma catástrofe.
Sobral vê agora o seu trabalho chegar ao cinema através da visão de Guillaume Ivernel, um veterano da animação que entre outros filmes levou às salas Chasseurs de Dragons (Caçadores de Dragões). Procurando encontrar um equilíbrio delicado entre o respeitar o material original e , oferecer uma nova porta de entrada para este mundo, Os Lendários, o filme, recupera elementos dos primeiros volumes da série, reimaginando personagens, introduzindo novas figuras e reforçando temas como a amizade e a ecologia.
Assumindo influências que vão de Hayao Miyazaki ao cinema de aventuras clássico, Guillaume Ivernel conversou com o C7nema, em Paris, sobre o peso de adaptar um dos maiores sucessos da BD francesa, a utilização do Unreal Engine no processo de animação, e a ambição de transformar este filme no primeiro de uma saga cinematográfica.
Qual era a sua relação com Les Légendaires quando iniciou o projeto?
Quando me propuseram o projeto, não conhecia a banda desenhada porque não era da minha geração. Mas, assim que abri os álbuns, senti-me imediatamente em casa. Eu e o Patrick Sobral partilhamos uma enorme parte da mesma cultura, sobretudo a que adquirimos através do Club Dorothée, um programa francês dos anos 1980 e 1990 que passava imensa animação japonesa — Os Cavaleiros do Zodíaco, Albator, Goldorak e muitos outros. Os Lendários está repleto dessas referências.
Sentiu uma grande pressão ao adaptar um universo tão popular?
Sim, uma enorme pressão. Primeiro porque era fundamental respeitar o trabalho do Patrick Sobral. É a obra da vida dele; trabalha nela há mais de vinte anos. Por isso, insistimos que participasse no projeto. Há muitos códigos nos Os Lendários e, no início, até cometi alguns erros que ele corrigiu.
Também queria que ele gostasse do filme porque isso seria uma espécie de garantia junto dos fãs. Depois existia a pressão financeira: mesmo sem os orçamentos americanos, continua a ser um filme muito caro para os padrões franceses e europeus. E um projeto destes representa seis anos da minha vida.
Quando faz um filme destes pensa apenas no cinema ou também em streaming, séries e expansão do universo?
Já existe uma série, mas não respeitava totalmente os códigos dos Os Lendários, o que desagradou ao autor e a muitos fãs. O nosso desejo, da produtora, do Patrick e meu, é fazer sequelas se o filme encontrar o seu público. O universo é tão rico que, em hora e meia, apenas consegui explorar uma pequena parte. Há imensas histórias por contar.
A opção pela animação 3D esteve sempre prevista?
Quando entrei no projeto já existiam algumas versões do argumento. A produtora procurou-me porque eu tinha trabalhado em filmes como Caçadores de Dragões e Ballerina. E eu sempre fui um homem da 3D. Fiz parte das primeiras gerações da animação 3D em França.

E porque opta por trabalhar com motor de jogo Unreal Engine?
O Covid acabou por nos dar tempo para reescrever o argumento. Nessa altura vi uma demonstração do Unreal Engine 5 e percebi que já era possível fazer uma longa-metragem ele.
O mais interessante é que funciona em tempo real. Na animação tradicional ajustamos luzes e depois esperamos vários minutos — ou horas — para ver o resultado. Aqui podemos experimentar muito rapidamente, quase como num plateau.
Mas era importante que o filme não parecesse um videojogo. Tinha de parecer cinema.
Utilizaram inteligência artificial?
Não.
E qual é a sua opinião sobre a inteligência artificial e o seu uso na animação?
Há dois anos mergulhei completamente nesse tema. É uma ferramenta que chegou para ficar. Costumo compará-la à descoberta do átomo: vai produzir coisas extraordinárias e coisas terríveis. Tenho quase a certeza de que algumas profissões vão desaparecer.
Trabalho há mais de quarenta anos na animação e é a primeira vez que vejo uma tecnologia capaz de transformar profundamente o setor.
Acha que o regresso de muitos animadores ao 2D é uma reação a isso?
Em parte, sim. É um pouco como o regresso dos discos de vinil. Mas também há uma razão económica: a animação 2D é muito mais barata. Produzir um filme em 3D exige investimentos enormes.
Os Lendários custou cerca de 15 milhões de euros, o que é gigantesco para a França. Nos Estados Unidos, um filme semelhante custaria entre 150 e 200 milhões.
O espectador não quer saber quanto custou. Quer emoção e espetáculo. O nosso trabalho é criar essa ilusão.
Quais foram as principais referências cinematográficas?
As referências vêm sobretudo da cultura japonesa que eu e Patrick partilhamos.
Durante muito tempo achei que os japoneses faziam cinema de animação, não apenas desenhos animados. A forma como utilizam as câmaras e o découpage está muito mais próxima do cinema de imagem real.
Essa sempre foi a minha escola. Quando realizo, penso mais em referências de cinema de imagem real do que em animação.
E qual foi o maior desafio que encontrou pela frente?
Foram dois. O primeiro foi respeitar a obra original e, ao mesmo tempo, fazer um verdadeiro filme de cinema.
O segundo foi criar emoção. Em imagem real, se os atores forem bons, a emoção está lá. Em animação, temos de criar os atores do zero. É isso que considero mais difícil.
Falamos muito dos cenários, das luzes, da técnica, mas no final tudo se resume à emoção.
Pensou também no mercado internacional?
Claro. Quando fazemos um filme de animação deste tamanho, temos de pensar internacionalmente.
O Patrick Sobral e o editor gostariam muito que o filme permitisse finalmente aos Légendaires ultrapassar o espaço francófono. Até agora nunca conseguiram realmente atravessar fronteiras. Talvez porque o desenho é muito influenciado pelo mangá. Vamos ver se o filme consegue abrir essa porta.
Também esteve ligado a um projeto de animação em torno de Lucky Luke. O que aconteceu a essa produção?
O projeto continua a existir, mas já não sou eu o realizador. A produtora decidiu seguir outro caminho.
E depois de Os Lendários?
O que todos gostaríamos era de fazer uma ou várias sequelas. O universo é tão rico que ainda há imensas histórias que não consegui contar. Mas quem decide isso é o verdadeiro patrão: o público.
Gostaria de trabalhar para plataformas de streaming?
Sim, claro. Plataformas, cinema, séries… para mim, o importante é fazer animação.

Houve alguém que o inspirou a seguir esta carreira?
Sim. Posso dizer que tive a sorte de encontrar Deus. Sempre fui um enorme admirador de Moebius. E um dia ele apareceu com uma cassete VHS e disse-me: “Olha para isto.”
Na altura a internet não existia e Miyazaki era praticamente desconhecido em França. A cassete era de O Castelo no Céu (1986).
Fui para casa, vi o filme e foi um choque absoluto. Lembro-me de pensar: “Quando for grande, quero fazer isto.” Se tiver de citar uma obra e um realizador, será sempre essa.
No meu primeiro filme fiz várias homenagens a Miyazaki e passei algum tempo preocupado com a possibilidade de as pessoas pensarem que era uma cópia. Felizmente entenderam que era uma homenagem.
Miyazaki continua a ser a maior influência da minha vida.
Falou muito de emoção. É isso que distingue a animação japonesa?
Quando comecei a trabalhar, muita gente dizia que a animação japonesa era barata e mal animada. Nunca percebi essa crítica. Na verdade, os japoneses já faziam coisas extraordinárias numa época em que a animação francesa estava muito atrás deles.
Havia uma certa arrogância francesa que confundia simplicidade de animação com falta de qualidade. E isso nunca foi verdade.






