Gessica Généus abana Cannes com “Marie Madeleine”: “Venho de uma lógica em que não preciso que me criem um espaço: arranco-o, se for preciso”

(Fotos: Divulgação)

Atriz, realizadora e verdadeira força da natureza, Gessica Généus chegou a Cannes com Marie Madeleine, onde seguimos uma mulher ligada ao universo da prostituição procura afirmar a sua liberdade num Haiti atravessado pela fé, moralismo e desigualdades. Entre o bordel, a igreja e a comunidade que a rodeia, o filme confronta a religião, o desejo, o corpo feminino e a sobrevivência, recusando uma visão miserabilista do país.

Após uma ovação de dez minutos, neste regresso a um festival onde estreou Frida em 2021. a cineasta haitiana falou ao C7nema sobre a necessidade de provocar, filmar a partir de um país sem salas de cinema e contrariar imagens redutoras do Haiti. “Eu venho de uma lógica em que não preciso que me criem um espaço: arranco-o, se for preciso, porque foi isso que os meus antepassados fizeram”, afirmou.

Por que escolheu a figura de Maria Madalena para falar de uma mulher haitiana? Há aí uma provocação?

Sempre. Venho de um povo provocador. Venho da primeira república negra do mundo. Venho da terra da liberdade. Desde muito nova questiono tudo. Somos um povo que provoca constantemente — e pagámos muito caro por isso, continuamos a pagar, mas não deixamos de provocar. É como se ainda não tivéssemos aprendido.

Acho que isso está em mim: procurar os extremos, criar conversas improváveis, dizer coisas difíceis de articular mas que, no fundo, as pessoas conseguem compreender. Coisas que abrem novas possibilidades de conversa e novas respostas.

Tenho a impressão de que só o facto de fazer um filme vindo daquela parte do mundo já é uma provocação. Fazer cinema num país que não tem salas de cinema e que produz muito pouco já é ousar. E eu venho de uma lógica em que não preciso que me criem espaço. Se for preciso, arranco-o à força, porque foi isso que os meus antepassados fizeram. Nunca esperámos que nos dessem alguma coisa. Nada é oferecido.

Esperar que te autorizem a contar as tuas histórias é absurdo. Tens simplesmente de fazê-lo.

Como construiu essa personagem da Marie Madeleine?

Foi muito difícil na escrita. Um filme não é um livro. Quando escrevemos cinema, temos de estar obcecados com aquilo que vamos tornar visível. E há um momento em que as personagens começam literalmente a manifestar-se à tua frente. Sei que parece loucura, mas elas começam a falar contigo, a sugerir coisas. Às vezes escreves uma cena para as levar a um certo lugar e elas recusam ir.

Passei por muitos momentos em que tentava proteger a personagem, mas ela queria sempre largar tudo, ir mais longe, mais longe ainda. Nunca era suficiente. Até a sequência em que ela flutua sobre a cidade surgiu apenas uma semana antes das filmagens. Não estava no argumento. Ela queria sempre mais liberdade. Acho que ela própria sentia que eu ainda não tinha ido suficientemente longe.

Qual é o papel da religião no filme? É uma prisão, uma forma controle ou um refúgio?

É tudo isso ao mesmo tempo. E é isso que torna o percurso de Joseph tão difícil. Ele ama aquela comunidade religiosa, ama os jovens com quem cresceu, gostaria de conseguir existir ali. Mas essa radicalidade fechada, que impede tantas coisas de existirem, torna-se insuportável.

É estranho porque a religião deveria libertar, deveria ser amor. Sempre nos disseram isso: ‘Deus é amor’. Ouvi essa frase a vida inteira. Mas então pergunto: onde está esse amor? O que fizeram dele?

O corpo feminino ocupa um lugar muito frontal no filme. Como trabalhou essa dimensão?

Os corpos têm muito espaço neste filme porque o corpo também é uma forma de expressão. Queria mostrar corpos em busca de liberdade. Não corpos completamente livres — porque isso é um processo — mas corpos que procuram libertar-se, relaxar, expandir-se.

É isso que Marie Madeleine representa. Está na maneira como se veste, na relação que tem com o próprio corpo. Mas quando precisa de se proteger, ela mostra as garras. É uma personagem muito mais complexa do que parece.

O filme também parece querer contrariar certas imagens simplistas sobre o Haiti.

Sempre. Porque me cansa essa ideia de reduzir o Haiti a uma única imagem. Isso é falso. São construções. E eu não tenho energia para estar constantemente a discutir isso em entrevistas. Então prefiro fazê-lo através do cinema.

Quero que as pessoas estranhem o facto de se identificarem com personagens e realidades que julgavam distantes delas. Acho isso mais eficaz do que um discurso frontal.”

A estética do filme parece muito pensada desde o início. Já escrevia o argumento imaginando a fotografia? Como foi o diálogo com a direção de fotografia?

Pensei nela bcecadamente. Eu queria uma fotografia magnífica. Gosto muito do calor visual do cinema dos anos 80 e 90. Ainda havia algo de bruto, artesanal, antes do digital dominar completamente.

Mas eu ainda não sabia exatamente como chegar lá. O encontro com o diretor de fotografia Nicolas Canniccioni foi fundamental. Passámos um ano inteiro a trabalhar juntos. Eu dizia: ‘gostava disto’, e ele respondia enviando referências, imagens, ideias. Nunca me impôs nada. Pelo contrário: ajudou-me a clarificar o meu próprio olhar.

Qual foi o maior desafio que encontrou?

Tudo. O financiamento foi extremamente difícil porque sou haitiana e tenho apenas nacionalidade haitiana. Isso significa que tenho acesso a muito poucas comissões de apoio. Para conseguir fazer o filme, todas tinham de dizer que sim. Bastava uma resposta negativa e o filme morria.

Vivi anos de tensão constante. Depois veio a produção, convencer equipas a ir filmar para Jacmel, garantir segurança, infraestrutura… Foi um desafio até ao fim. E ainda hoje, às vezes, acordo a pensar que continuo em filmagens.

Se não há salas de cinema no Haiti, como espera mostrar o filme ao público haitiano?

Com Frida organizei uma tournée nacional. Levámos projetores, som, e recriámos salas de cinema em várias cidades. Quero fazer o mesmo com este filme, embora hoje seja muito mais difícil logisticamente.

Mas vou fazê-lo. Nem que seja de forma simbólica. É importante para mim.

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