Viagem ao Bosque de Bolonha, “um bordel a céu aberto” em Paris, com Claus Drexel

(Fotos: Divulgação)

Quando nos encontrámos com Claus Drexel em Paris no início de 2020, o objeto da nossa conversa era “Sous les Étoiles de Paris”, um drama que o realizador tinha filmado com Catherine Frot no papel de uma sem-abrigo entregue à dureza das ruas da “cidade das luzes”.

Esse filme, que de certa maneira funcionava como uma continuação da história dis sem-abrigo que o realizador retratava no seu documentário “Au Bord du Monde” (2014), acabaria por ver a sua estreia adiada devido à pandemia, estando – por exemplo – apenas programada para chegar a Portugal na próxima Festa do Cinema Francês.

Claus Drexel – © Philippe Quaisse / UniFrance

Nessa conversa de 2020, Drexel já nos tinha falado do seu “Au Coeur du Bois”, que foi exibido este ano na Dinamarca, no CPH:DOX, e chegou a Portugal na semana passada através da secção Silvestre do IndieLisboa.  “Neste momento passo os meus dias e noites no bosque de Bolonha”, dizia-nos na época Drexel, acrescentando que as pessoas que se prostituem nessa área eram muito mal vistas pelo público e que pretendia mostrar “os seres humanos e não a imagem, o rótulo” que a sociedade colocava neles.

Passados quase dois anos, voltamos a nos encontrar com Drexel, desta vez numa entrevista via Zoom, onde abordamos este seu documentário e discutimos a tendência do seu cinema em se focar nos marginalizados, naquelas que se encontram nos limites da sociedade e que tentam sobreviver com as armas que têm.

Há várias décadas que o Bosque de Bolonha, um grande parque público localizado no 16.º arrondissement de Paris, funciona como “um grande bordel a céu aberto”. Símbolo máximo da prostituição em Paris, nomeadamente de mulheres transexuais e travestis, o bosque foi ao longo dos anos, especialmente movido pelas inúmeras transformações legislativas no país, mudando a sua dinâmica e os seus “habitantes”. Drexel mostra isso mesmo no seu filme, através de conversas com diversas pessoas que se prostituem nesse parque.

Um dos primeiros desafios que encontrou na composição deste trabalho foi o de conseguir convencer estes protagonistas a surgirem nele, pois contrário do seu documentário sobre os sem-abrigo, no qual estes eram mais acessíveis de abordar e falar sobre a sua condição, no caso de “Au Coeur du Bois” havia uma invasão de uma área de trabalho particular sobre o qual essas pessoas poderiam ou não querer falar. “Era muito importante para mim ter pessoas que aceitassem falar de cara descoberta, sem problemas de se exporem. Muitos diziam que não se importam de falar para a câmara, mas não queriam mostrar o rosto, pois os vizinhos, o padeiro ou o tipo onde compravam cigarros não faziam a mínima ideia do seu trabalho diário”, diz-nos. “Por isso mesmo, passei muito tempo a falar, discutir com elas e a convencê-las a participar no filme. No final desse processo escolhi mostrar algumas das que falam abertamente sobre o tema e não não têm problemas com a exposição. (…) Acima de tudo queria sinceridade, que elas falassem sem grande intervenção minha”.

Au Coeur du Bois

Uma das características dessas prostitutas que usam o Bois de Boulogne como área de trabalho é a diversidade das suas proveniências, não apenas no que concerne a esferas sociais, mas nacionalidades, havendo segundo o realizador transformações constantes na composição do local. “As mudanças e transformações neste bosque ocorrem há décadas. Nós, por exemplo, filmámos durante quatro anos, com várias interrupções, as pessoas que por lá andavam. Por exemplo, no início dos trabalhos havia muita gente de origem peruana e equatoriana, mas depois isso mudou rapidamente quando foi introduzida a lei de 2015 que passava a punir os clientes que acediam à prostituição. Por causa dessa lei, que inicialmente era vista como uma coisa boa, pois anteriormente quem era punida era a prostituta, os clientes afastaram-se do bosque e muitas dessas pessoas que lá trabalhavam partiram para outros países com legislações mais flexíveis, como a Alemanha e a Itália. Ainda assim, a variedade de origens das prostitutas que lá continuam é bastante grande e o espaço está muito sectorizado. As pessoas da América do Sul encontram-se mais num lado do parque, os de origem Romena noutro e por aí fora. Essa mistura de gentes de várias origens era muito interessante e importante de mostrar”.  

Apesar de “Au Coeur du Bois” ter uma vertente inevitavelmente política, já que são diretamente abordadas as alterações legislativas que genericamente – e segundo as palavras das intervenientes -pioram bastante o seu negócio e consequentemente a sua vida quotidiana, Drexel insiste que acima de tudo queria no seu filme mostrar “seres humanos” e ouvir o que elas tinham para dizer. “Temos tendência a julgar as pessoas sem as conhecer. Isso revolta-me e queria muito observar o que essas pessoas têm a dizer e como são as suas vidas. Não sou eu que imponho o tema político, são elas. Descobri todo esse lado político à medida que fui filmando. (..:) Por exemplo, quando comecei a filmar concordava com a lei que penalizava os clientes, mas depois de ouvir essas pessoas, a abordagem alterou-se devido à dimensão política do que é dito por elas. E é importante dar ao espectador essa consciência política. (…) Porém, para mim, o mais importante é que todas as pessoas sejam respeitadas do ponto de vista humano.

Contrastando com o realismo generalizado do filme, em especial nas entrevistas e depoimentos das prostitutas, as imagens noturnas do bosque de Bolonha evocam de certa maneira uma aura mágica e um cuidado estético particular que elevam o filme para outro território, quase de um espaço “encantado“.

Au Coeur du Bois

Drexel relembra que adora trabalhar entre géneros, aplicando nos seus documentários alguns elementos mais comuns no cinema de ficção, e nas suas ficções elementos mais associados ao cinema documental. Neste caso particular, o realizador evoca essas imagens mais “mágicas” como a sua forma de mostrar a “transformação” daquelas pessoas nas “personagens” que aí assumem, num local que tem algo de “encantado“, como se fizesse parte de um conto de fantasia.  “Há coisas por aqui que me levam aos contos de fadas. Tudo se passa num bosque; a transexualidade é como uma forma de ‘transformação’; falamos muitos de sexualidade, tabus e famílias.  Queria mostrar este filme em todo o seu realismo, mas igualmente de uma outra forma (..:) E queria muito que as pessoas que participaram no filme, olhassem para elas no fim e se vissem de uma forma bela.”

Os grandes protagonistas do filme, onde se incluem um exemplo português e outro brasileiro, já assistiram à obra, numa projeção “protegida” onde só eles tiveram acesso. Para Drexel, isso era óbvio: “Era muito importante para mim elas assistirem ao filme em primeiro lugar e de forma segura. Se eles fossem ver o filme num ambiente com outras 300 pessoas na sala, certamente poderia ser uma experiência violenta para elas“. 

Os marginalizados no cinema de Claus Drexel

Quem acompanha mais atentamente a carreira de Drexel denota facilmente um padrão no seguir histórias de figuras marginalizadas, e sempre sob um olhar humano, social e político. Essa sua forma de pensar e trabalhar em cinema vai continuar no futuro, com o realizador a confessar ter já vários projetos – ficções e documentários – em marcha. “Quando comecei fiz uma curta-metragem que podemos descrever como um “polar” (policial), mas quando assinei o primeiro documentário, sobre os sem-abrigo, isso mudou-me completamente. Todos os meus filmes têm uma dimensão social e estou a preparar dois novos documentários. Um é sobre pessoas idosas (80 ou mais anos) que segui por toda a França. E sigo desde um homem que vive num castelo, um aristocrata, até gente do campo e imigrantes. Queria ouvir o que eles têm a dizer sobre a vida. De como as coisas mudaram num século. E também sobre a morte e o seu medo dela. Tenho também outro projeto que se desenrola em ambiente psiquiátrico. É um meio que conhecemos pouco. Quero entrar nele e descobri-lo. Também preparo uma ficção, que é a minha paixão inicial. Foi com ficcção que comecei. Há dois anos que procuro um bom tema e acho que finalmente encontrei algo que me agrada. Ainda é cedo para falar nisso, mas o que posso dizer é que é um filme que se passa no Paleolítico, na idade da Pedra. “.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/lxmh

Últimas