Entrevista a Michel Simeão, organizador do Córtex – Festival de Curtas Metragens de Sintra

(Fotos: Divulgação)

Não se faz um festival sem muito esforço e dedicação. A honrar estes dois adjetivos surgem José Chaiça e Michel Simeão (os organizadores/diretores/fundadores/criadores e mais) do festival. A começar pela seleção, acabando nos croquetes e no vinho de colares (com moderação), o Córtex foi sinónimo de sucesso. Que o digam as olheiras destes dois gurus do festival. Michel Simeão é uma das metades do projeto, que ao 4º ano de vida, promete assentar raízes por muitos mais.

Porquê realizar um Festival em Sintra e não noutra cidade, como por exemplo Lisboa?

Antes de mais nada, porque a Associação Cultural que organiza e produz o Festival está sedeada em Sintra e chama-se Reflexo – Associação Cultural e Teatral. Depois, porque temos um belíssimo auditório para realizar o evento, onde somos muito bem acolhidos e temos também o apoio da Câmara Municipal. Em terceiro lugar, porque existe uma falta tão grande de vida cultural em Sintra que mesmo quando as coisas acontecem, as pessoas não se interessam. Há um trabalho de fundo para fazer em Sintra, no que diz respeito à cultura, muito grande. O Córtex teve uma forte divulgação nos meios de comunicação social: imprensa, rádio, tv, foi capa da agenda cultural de Sintra, teve outdoors, mupies, cartazes nas ruas e interiores de lojas e posso dizer que os sintrenses não são mais do que 5% do nosso público (estou a ser generoso). Portanto, é fácil concluir que é uma vila de costas viradas para a cultura. O que fazemos ou é um grande desafio, ou puro masoquismo.

O que o levou inicialmente a ter a ideia para este festival?

Acredito que a responsabilidade de dirigir uma Associação Cultural deve de ir muito para além do meu métier. Eu sou ator, encenador e autor de peças de teatro e esse é, de grosso modo, o trabalho que tenho desenvolvido no Reflexo. Mas acho que enquanto plataforma que produz cultura, há muito mais para fazer. Olhei à volta, percebi que em Sintra nunca tinha havido nenhum evento cinematográfico e resolvi criar um festival de curtas que também vinha preencher uma lacuna em Lisboa, dado que não existia até à data nenhum Festival exclusivamente dedicado ao formato da curta metragem. Para além disso, procurei que fosse uma mostra e simultaneamente uma competição entre os melhores trabalhos desenvolvidos dentro deste formato.

Porquê um festival só de curtas-metragens?

Porque a curta metragem tem ganho um fôlego e uma força inacreditáveis nos últimos cinco anos. A curta metragem vai alavancar carreiras de jovens realizadores e o incentivo e notoriedade que lhes possa ser dado, nunca é de mais. Eu quero viver num país que um dia possa vir a ter uma indústria cinematográfica, é por aqui que se começa. Eu hei de contribuir o máximo que puder para que isso aconteça. Produzo cultura, tenho essa responsabilidade.

Quais são os critérios para selecionar uma curta para passar no Festival Córtex?

São vários e é complicado enumera-los a todos. Mas, para além dos aspetos técnicos, que são muito importantes, é a ligação que um filme consegue estabelecer com o público. Sentir que o filme fala com os espectadores, que não é um filme feito pelo realizador para o realizador, mas sim para um público que procura sentir alguma coisa, quando se senta numa sala de cinema. Gostamos muito de boas narrativas, não vou nega-lo, e elas de facto escasseiam muito.

Está satisfeito com a aderência do Público este ano? O que falta para conseguir casa cheia consecutivamente?

Estou satisfeito dado que foi bastante superior à do ano passado. Falta o público de Sintra interessar-se, estar atento, procurar, ter pelo menos abertura para experimentar algo que desconhecem e que pode tornar-se numa boa experiência. E não é só isso, é apoiar a cultura que é feita no local onde habitam, porque isso poderá trazer um retorno incrível para todos. É preciso visão. Se tivéssemos as pessoas de Sintra interessadas, tínhamos garantidamente casas sempre cheias e daqui a uns anos estávamos a passar para o auditório grande do Olga Cadaval.

Qual é o balanço que faz, destes últimos 4 anos de Festival?

É positivo. O público tem crescido, as competições têm sido cada vez melhores e as ideias têm brotado. Espero conseguir manter este Festival por muitos anos e espero que a Câmara Municipal de Sintra, que agora mudou de “gerência”, continue a investir e a apoiar o Festival. O único aspecto negativo deste balanço, infelizmente, prende-se com o público de Sintra que teima em não abraçar estas iniciativas.

Aos quatro anos uma criança já fala e anda, aos 5 entra para a pré-primária. O que espera conseguir no próximo ano, que ainda não conseguiu neste?

Mais dinheiro (risos). Espero sinceramente que haja um maior investimento para comprar “material escolar” já que aos cinco entramos na escola. E aproveito para fazer uma ponte com um dos nossos objetivos. No próximo ano, queremos criar mostras de trabalhos escolares, não só nacionais mas internacionais. Temos recebido trabalhos de escolas lá de fora inacreditáveis e parece-me que há aqui potencial para um intercâmbio muito interessante. Certamente, algo que irá acontecer no próximo ano é o crescimento da competição internacional, que passará a ter provavelmente o mesmo número de filmes que a competição nacional. Para isso, precisamos de mais dias de festival e para termos mais dias, mais dinheiro. A ver vamos.

Durante estes 4 anos, alguma vez pensou em desistir e não realizar o Festival?

Sim, todos os anos pensamos nisso! É muito difícil organizar um Festival, neste caso apenas com duas pessoas, que sou eu e o José Chaíça. Os recursos são limitados, a nível financeiro, fazem-nos perguntar até que ponto vale a pena, e a falta de interesse dos sintrenses também já nos derrotou um pouco. Hoje em dia percebemos que o problema é deles, não nosso! (risos) Nós queremos sempre fazer mais e melhor, um festival tem de ser assim, temos medo de estagnar, por isso pensarmos em desistir é algo recorrente, porque não havendo dinheiro para fazer mais e melhor, mais vale não fazer de todo.

Fora do âmbito Córtex, que outros projetos profissionais tem em carteira?

Acabei de estrear uma encenação e um texto meu, para o público infanto-juvenil, que se chama “A Casinha de Chocolate” e que estará em digressão até ao próximo verão. Em 2014, quero repor em Lisboa o monólogo que estreei no ano passado que se chama “Trans-mute“. Para além disso, faço dobragem e sou diretor de atores em dobragem nos estúdios Buggin Media, que é algo que me dá muito prazer fazer.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/l1rw

Últimas